Criar na cidade

A história do Portal Aprendiz: Uma homenagem ao jornalista Gilberto Dimenstein

O ano era 1998, e uma casa atijolada na Rua Belmiro Braga, no bairro da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, fervilhava de gente. Jovens oriundos de diversas partes da cidade, e tão diversos quanto ela, passavam suas tardes em múltiplas atividades educativas: escreviam, aprendiam a criar sites, faziam intervenções artísticas nas ruas próximas. Estes jovens aprendizes deram origem ao que hoje se conhece como Portal Aprendiz.

Narrar a história da plataforma digital que há mais de 20 anos cobre educação, cidadania e direitos humanos no Brasil é contar como o jornalista Gilberto Dimenstein, em 1997, sonhou e criou o Projeto Aprendiz, um laboratório experimental de comunicação e educação. 

Os tentames e aprendizados do visionário jornalista e a trupe de jovens que com ele trabalhavam se arvoraram em projetos disruptivos de educação em todo o território, sedimentando as fundações do que hoje é a Associação Cidade Escola Aprendiz

“É o Portal Aprendiz que pariu a Associação Cidade Escola Aprendiz, não o contrário”, recorda o jornalista Alexandre Le Voci Sayad, um dos editores do Projeto Aprendiz. “A primeira coisa que o Aprendiz teve na sua história foi uma redação e um site. Não havia naquela época nenhum veículo especializado em educação, e o pioneiro foi um site de jovens de escolas públicas e particulares produzido mídia, se expressando e aprendendo.”

Para homenagear o criador do Projeto Aprendiz Gilberto Dimenstein, falecido na última sexta-feira (29/5), o Portal Aprendiz apurou sua história, revisitando as memórias de uma iniciativa pioneira em tornar a educação uma pauta central na sociedade brasileira. 

gilberto dimenstein colocando azulejos nos muros da vila madalena

O jornalista Gilberto Dimenstein, em foto da arquiteta Mônica Alves

Comunicação e Educação

Foram os anseios de Gilberto Dimenstein, combinados a um mundo digital que começava a florescer, que germinaram a proposta do Projeto Aprendiz. Morando em Nova York (EUA) e sempre em contato com o que havia de mais inovador no campo da educação e da tecnologia, o então jovem jornalista começava a vislumbrar o que a combinação de uma cobertura crítica de educação com a internet poderia gerar. 

De volta ao Brasil, Gilberto juntou-se a jornalistas como Fernando Rosseti, Tatiana Heise  e Natasha Madov no desejo de criar um projeto experimental de educação e comunicação com jovens do Ensino Médio de São Paulo. 

Nascia então o Projeto Aprendiz. Estudantes do segundo ano do Ensino Médio do colégio particular Bandeirantes – que também foi sede da iniciativa – e de escolas públicas como a Rui Bloem,  foram os primeiros a integrar esta redação-escola, que produzia conteúdos sobre educação, juventude e empregabilidade.

O jornalista Rodrigo Zavala, um dos primeiros repórteres e depois editor do Projeto Aprendiz, relata a empreitada: 

“Dois a três alunos de cada escola começaram a trabalhar juntos na perspectiva da comunicação pela educação. A partir do conteúdo que desenvolvemos para o site do projeto, entramos em contato com uma educação mais crítica e ampliamos nosso conhecimento. Era uma ferramenta de aprendizado complementar à escola.” 

Alexandre ressalta o pioneirismo do site em uma época em que a cobertura de educação não recebia atenção midiática: “A cobertura de educação era pautada pelo governo e pelo Ministério da Educação. Você não tinha espaço para a educação infantil, só se cobria Ensino Superior. O site teve a responsabilidade de abrir essa pauta para o jornalismo e qualificar este discurso.”

jornalistas do projeto aprendiz

Estudantes que compunham o Projeto Aprendiz. Foto gentilmente cedida pelo jornalista Rodrigo Zavala

Experimentação como princípio 

Otho Garbers, que começou como repórter do Projeto Aprendiz e, por mais de uma década trabalhou como gestor da área de Design e Desenvolvimento Web da organização Cidade Escola Aprendiz, relembra os encontros e as possibilidades de experimentação vivenciados no dia a dia de quem atuava no projeto.  

“Éramos adolescentes com uma escolaridade muito heterogênea, que tinha acesso a um grupo de jornalistas, artistas, educadores, que discutiam tudo conosco. Os temas, o método, a gente não estava habituado com aquilo, era tudo muito novo.” 

As matérias produzidas nos profícuos encontros nasciam destas reuniões, como recorda Zavala. Estas matérias nunca se pretenderam hardnews, justamente porque o que era construído ali vinha de profundas reflexões e trocas: “Tínhamos uma integração completa como aprendizes, e trabalhávamos juntos toda a concepção das matérias. As mais curtas, individuais, tinham sido debatidas coletivamente, e as maiores, fazíamos a quatro, seis mãos, sempre criando pontes, sempre com os dedos de cada um.”

Este laboratório experimental, que ocupou inicialmente uma sala provisória no Colégio Bandeirantes e depois migrou em definitivo para a sede atijolada na rua Belmiro Braga, no bairro da Vila Madalena, aproveitou-se da ampliação do acesso à internet no Brasil para instaurar processos participativos de educomunicação.

“Este espaço tinha – e ainda tem – uma qualidade muito grande que é a de um aprendizado que se dá na prática. Desde quando eu tinha 18 anos e comecei a trabalhar na parte técnica do projeto até hoje, trabalhando no Aprendiz, sempre pude experimentar, testar novas ferramentas, o que me deu oportunidade de crescer”, afirma Gláucia Cavalcante, designer que atuou no projeto à epoca e hoje é gestora da área de Design e Desenvolvimento Web da instituição. 

otho garbers

Primeiro layout do Portal Aprendiz / Crédito: Otho Garbers

A juventude como protagonista 

O compromisso com a ampliação da voz da juventude brasileira era permanente. Guiados pelas diretrizes do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), os jovens repórteres produziam matérias diárias. Suas opiniões e pareceres, baseados em experiências vividas em seus territórios, estavam impressas nos textos publicados. 

Mônica Alves, arquiteta e urbanista, foi uma das primeiras repórteres do Projeto Aprendiz. Estudante de uma escola pública, ela encontrou na redação-escola um espaço de ampliação de sua voz e construção de auto-estima: “Tanto eu quanto os demais que vieram de escola pública tínhamos um complexo de inferioridade devido às muitas situações que passamos na vida. O Aprendiz e o Gilberto trouxeram a certeza de que tínhamos voz, de que conseguíamos debater, agregar. Todo mundo ali, independente da experiência, tinha algo a contribuir para um projeto coletivo de educação.”

As produções de reportagens eram intercaladas com aulas de inglês, redação e photoshop. Os jovens também percorriam espaços da cidade para aprender: Mônica se lembra de aulas de arte onde desenhavam obras de Auguste Rodin dentro do Cemitério de São Paulo, ou quando reuniões e atividades aconteciam no meio de praças e becos coloridos de pichações. 

“O Projeto Aprendiz demonstrou que a cidade é de fato sem muros. Quando a gente tem pertencimento à nossa cidade, ela se desenvolve de uma forma positiva para todos. E hoje, como arquiteta e urbanista, trabalho com projetos que buscam a transformação da cidade a partir das pessoas.” 

juventude sempre teve papel fundamental nos projetos do aprendiz

O Projeto Aprendiz teve na sua fundação pensada por jovens / Crédito: Acervo Aprendiz

O legado do Projeto Aprendiz 

O Projeto Aprendiz cresceu: muitas outras intervenções nasceram do ímpeto e da coragem de Gilberto e dos jovens. Escola da Rua,  100 Muros, OldNet, Escola na Praça, Trilhas Urbanas, Repórter Aprendiz, Trilhas da Cidadania frutificaram no interior da Associação Cidade Escola Aprendiz, organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP) criada por Gilberto em 1999.

Sociedade civil organizada

Reunindo os aprendizados coletados a partir dos diferentes projetos, a Cidade Escola Aprendiz desenvolveu o Bairro-escola, uma proposta de aprendizagem compartilhada, na qual os diferentes agentes (escolas, artistas, moradores, lideranças comunitárias, gestores públicos, comerciantes, entre outros) de um território de mobilizam e se corresponsabilizam por uma educação que se dá em todos os lugares, ao longo da vida. Reconhecida internacionalmente, a proposta serviu de referência para a elaboração de diversas políticas públicas no Brasil.

“O Projeto Aprendiz sempre teve essa característica de crescer para vários lugares, até de um jeito meio desorganizado, mas sempre com muita experimentação e pioneirismo. Tudo que construímos naquela experiência permanece até hoje. Está nos muros da Vila Madalena, está na Associação Cidade Escola Aprendiz”, relata Natasha Madov, editora do Projeto Aprendiz. 

Portal Aprendiz: jornalismo e democracia

Em 2002, o site do Projeto Aprendiz se transforma em Portal Aprendiz. Uma dezena de repórteres participaram de momentos emblemáticos da cobertura de educação e direitos humanos no Brasil, como as manifestações de 2013 pelo direito à mobilidade urbana, encabeçadas primordialmente por jovens, e a primavera secundarista de 2015, quando os estudantes ocuparam as escolas de todo o Brasil. 

“A influência de Gilberto e do Aprendiz no jornalismo é a de sempre buscar pela melhor história, conhecer seus personagens. Ser crítico e acreditar que ideias e pessoas melhoram o mundo. O legado do Aprendiz é o de inconformismo”, arremata Zavala. 

Alexandre compartilhou no fim de sua entrevista que uma das ideias de Gilberto era que a redação do Projeto Aprendiz fosse feita de paredes transparentes, no meio de uma praça, para que toda a cidade soubesse que ali se produzia um conteúdo conectado com seu território e à serviço dele. 

Embora este devaneio não tenha se realizado fisicamente, ele é verve de todas as práticas jornalísticas do Portal Aprendiz. Todos os jornalistas, editores, ilustradores, designers, educadores e jovens que passaram pelo projeto trabalham sob a égide de um jornalismo conectado irrevogavelmente com seu território, com os direitos humanos e com a democracia.