Criar na cidade

‘Pipasgrafia’: cartografia afetiva mapeia soltura de pipas no Rio de Janeiro

Desde o início da pandemia, a pedagoga Camila Regina e o cartógrafo Henrique Lima notaram um aumento significativo de pipas nos céus periféricos do Rio de Janeiro. Os losangos e deltóides de papel colorido são guiados por mãos de crianças e adultos que não podem sair de casa, mas que podem subir em suas lajes para soltar pipa. 

Inspirados por essa tomada dos céus e por suas próprias histórias com a pipa, os dois pipeiros fundaram o Pipasgrafias, um projeto multimídia sobre a brincadeira. Relatos em vídeo, texto e ilustração – além de um mapa interativo – compõe um retrato de como é soltar pipa nas diferentes periferias cariocas. 

Pipasgrafias é a celebração de uma arte e brincadeira frequentemente marginalizada por ser produzida em espaços de periferia e na favela”, conta Camila. “A partir do protagonismo dos pipeiros e sua sabedoria popular, mostramos que as pessoas produzem arte e memória o tempo todo.”

Segundo o escritor Luiz Eduardo Simas no livro “A alma encantadora das ruas”, a pipa é uma invenção chinesa. No Brasil, ela muda de nome a depender de seu formato e do céu onde é solta, atendendo por raia, suru, papagaio e capucheta. 

Estes “brinquedos de fabular céus e desafiar as nuvens”, como o historiador denomina, e seu modo de soltá-los foram declarados patrimônio imaterial do Rio de Janeiro em 2018. 

festival de pipa no complexo do alemão bruno itan

Festival de pipas no Complexo do Alemão / Crédito: Bruno Itan

Pipa e cidade

“Quando eu tinha cinco anos, comecei a soltar pipa e a me apaixonar por aqueles momentos”, relata o pipeiro Wallace Silva ao Pipasgrafias. “Fiz muitas amizades através da pipa. Já teve dia que fiquei horas sem aparecer em casa de tanto que corria atrás de pipa.”

Subir a laje, procurar um espaço aberto no céu longe de fios elétricos, esperar o melhor vento para lançar o papagaio. Soltar pipa é uma brincadeira que depende da rua – e como ela foi construída – para acontecer. 

“Favela e bairros periféricos são construídos sem nenhum planejamento urbano. É um espaço de muitos corres, no sentido de trabalho e esforço mesmo. No momento de soltar a pipa, a brincadeira acontece no meio dos becos, em cima das lajes, onde dá”, descreve Henrique. 

O método  de soltar pipa varia a depender do território, como narra Camila: ‘Em uma favela como a Rocinha, que tem estrutura de morro, você vê crianças e adultos soltando pipas na laje, porque as ruas são muito estreitas para isso. Na baixada fluminense, que é mais plana, tem muito de soltar pipa em terrenos baldios.” 

Os relatos no Pipasgrafias debatem continuamente a periculosidade de soltar pipa em lugares impróprios, como perto da fiação elétrica, ou do uso proibido de cerol ou da linha chilena.  “Trazemos este debate na voz dos próprios pipeiros, sem demonizar ninguém, com a preocupação sempre de segurança para quem brinca”, explana Camila. 

Pipaterapia 

É comum ver pipeiros adultos em suas lajes, soltando e aparando pipas por horas a fio. Essa brincadeira se esparrama da infância para a vida adulta.  “Parece que a pipa se torna extensão da pessoa, e brincar, fazer zoeira e competições saudáveis entre pipeiros, se converte em uma espécie de terapia”, observa Henrique. 

A potência deste brincar, que se recusa a arrefecer mesmo em tempos de pandemia, é para Camila uma mostra da pulsão de vida de territórios frequentemente lembrados por suas vulnerabilidades: 

“Mesmo que as pessoas cumpram o isolamento social, muitas vezes as casas nas periferias são pequenas, com muitas pessoas ocupando poucos cômodos. Quando solta pipa na sua laje, o pipeiro ou pipeira é artista, encontra sua individualidade e a brincadeira como potência. Pensar nessa forma corriqueira de brincar é pensar celebração de vida, mesmo na necropolítica do Rio de Janeiro.”

rapaz solta pipa em cima da laje

Wellington, do Complexo do Alemão, diz que pipa é terapia / Crédito: Pipasgrafias