Criar na cidade

UniverCidade Fluxo: conheça a universidade livre gerida por jovens periféricos

Entre setembro e novembro de 2019, praças do bairro Cidade Líder, na zona leste de São Paulo, se converteram em espaços de aprendizagem. Jovens de 15 a 17 anos se encontravam semanalmente para construir e compartilhar aprendizados sobre temáticas que escolhiam estudar: jovens produziam fanzine, outros estudavam para o vestibular, alguns praticavam e pesquisavam danças afro. 

Essa foi a primeira jornada de aprendizagem autodirigida da UniverCidade Fluxo, uma universidade livre sonhada e gerida por jovens periféricos do coletivo É Bom de Ver, Cidade. Sem paredes ou grades curriculares, a universidade constitui-se a partir do encontro entre seus participantes, dos desejos de aprender e dos espaços públicos onde conseguem se reunir. 

Universidade livre ou aberta são espaços de aprendizagem aberta, onde diversos tipos de conhecimentos podem sem trocados sem necessariamente uma preocupação diplomática ou de formação profissional. Uma das mais conhecidas é a Universidade dos Pés Descalços, na Índia.

“A UniverCidade Fluxo é um lugar de autoestima, das pessoas se sentirem parte de um projeto educativo, de se saberem ouvidas e inteligentes. Nela, as relações se constroem de forma horizontal”, relata Ciano Buzz, artista, educador e um dos idealizadores da jornada. 

A primeira edição experimental acontece, para além dos encontros dos jovens na cidade, com com uma série de eventos culturais e cursos.  A mobilização foi tão exitosa que o coletivo conseguiu recursos para expandir a UniverCidade Fluxo em 2020. Entretanto, por conta da pandemia, o patrocínio não se concretizou. O grupo está com uma campanha de financiamento coletivo para retomar o projeto, inicialmente com aulas online. 

pessoas aprendem em conjunto no festival dos saberes

Durante as jornadas, cada um é livre para aprender o que deseja. Na foto, Festival dos Saberes, uma das iniciativas do coletivo É bom de ver, Cidade / Crédito: Divulgação

Jornadas de aprendizagem autodirigidas

O princípio fundador da UniverCidade Fluxo é que cada indivíduo pode escolher o quer aprender e como deseja fazê-lo. A partir dos aportes coletivos do grupo, nasce então um trilha de aprendizagem genuinamente pessoal e que faz sentido quem a escolheu. 

Foi o que aconteceu com a participante Beatriz Pires Barbosa. Interessada na dança e corporeidade negras, ela usou a jornada para estudar danças inspiradas nas histórias dos orixás, divindades do candomblé e da umbanda. 

“Durante a jornada eu via filmes, lia bastante, ia em apresentações de dança afro em outros lugares da cidade”, recorda Beatriz. “O grupo de jovens se encontrava quando era possível na praça da comunidade e conversava sobre todo o processo, dando sugestões e trocando conhecimentos.”

As jornadas não se pretendiam imutáveis: se durante o percurso a pessoa que o pensou quisesse mudar de tema, isso era possível e facilitado pelo grupo. A maleabilidade torna o processo de aprendizagem diferente dos normalmente endurecidos ensinamentos da educação formal. 

“Cada pessoa tem seu próprio percurso. Ela pode mudar de tema, montar encontros para compartilhar o que tem aprendido, encontrar com quem trocar dentro e fora do grupo. No fim do processo, ela divide o que aprendeu da forma que quiser, com um texto, fanzine, ou até uma própria oficina. Cada um traz o que sabe, mas também o que não sabe.”

grupo reunido apresentação da jornada de aprendizagem autodirigida

Bia (de vermelho) vestida para a apresentação final de sua jornada de aprendizagem autodirigida / Crédito: Arquivo pessoal

Mentoria e potências dos território

Embora a aprendizagem seja autodirigida, o potencial da UniverCidade Fluxo está justamente no encontro. Todos que ensinam também aprendem: se alguém sabe ensinar violão, por exemplo, pode trocar esse saber com alguém que saiba edição de vídeo. 

Durante a jornada, os estudantes também contaram com mentoria de especialistas, que ajudavam a procurar referências e facilitavam a aprendizagem: 

“Contei com uma rede de mulheres mentoras que me ajudou durante o percurso. Enquanto uma professora me emprestava livros de afoxé, minhas mentoras de dança me ajudaram a desenvolver passos para a apresentação”, conta Beatriz, que ao fim da jornada apresentou uma cena inspirada na orixá Iansã. 

Para Ciano, esse encontro horizontal de saberes revela uma potencialidade dos territórios periféricos, frequentemente conhecidos por suas mazelas ou falta de acesso. Ainda segundo o educador, a possibilidade de uma universidade livre na quebrada, pautada nos desejos do território, revela que o conhecimento não está circunscrito a lugares centrais ou de tradicional conhecimento. 

“Existem poucos espaços de aprendizado e de autoestima para a população periférica. Durante a jornada, o que eu mais ouvi foi: ‘Eu não sabia que eu sabia isso!’ ou ‘Eu não sabia que eu tinha tanto a oferecer!’ A aprendizagem coletiva me mostra o quanto é importante se manter vivo e produzindo nas quebradas.”

 

Acesse a campanha de financiamento coletivo da UniverCidade Fluxo e saiba como contribuir: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/chega-junto-apoio-a-educadores-perifericos-jessica-oliveira-evangelista-dos-santos