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Literatura e pandemia: o direito à leitura como resistência à adversidade

Desde o começo da pandemia, o IBEAC (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário) e a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura, em Parelheiros (SP), trabalham para que as práticas de leitura e literatura construídas junto com o território não se percam, mesmo durante o isolamento social. 

Nas ações solidárias desenvolvidas pelo instituto, prosa e poesia sempre se fazem presentes: na cesta básica, junto com itens fundamentais como álcool e arroz, estão inclusos livros e poesias de escritores do território. 

pessoas fazendo cestas básicas

Nas cestas básicas distribuídas pelo IBEAC, poesia é item fundamental / Crédito: Flávia Kolshraiber

“É a tríade pão, proteção e poesia”, relata Bruninho Souza, educador e um dos integrantes do IBEAC. “Em um país onde a pandemia evidencia e aprofunda desigualdades, o trabalho social de bibliotecas comunitárias leva itens de necessidade, mas também amplia os direitos, como o direito à leitura. É importantíssimo que se tenha o que comer, mas também que as pessoas possam se alimentar de outros tipos de narrativa a partir da literatura.”

O Brasil não é um país de leitores: segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2015, os brasileiros leem média 4,96 livros por ano. A ampliação de políticas de leitura como o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) são algumas das estratégias utilizadas pela sociedade civil para ampliar esse direito, que tem a ver com a falta de acesso ao objeto livro e também ausência de bibliotecas.

O resultado desta intervenção poética no cotidiano de pessoas pode ser sentido em depoimentos como o da bibliotecária Sidneia Chagas, que defende na revista Vozes Daqui – produzida pelo IBEAC – sobre o livro como uma alternativa de passagem de tempo para seu filho Octávio, tão viciados em telas e sem possibilidade de brincar fora de casa.

“Meu desafio é envolvê-lo em outras atividades e estimular que os livros, em sua estante, também sejam uma aventura e despertem sua imaginação. A literatura permite viajar para outros lugares, mesmo estando em isolamento social.”

Literatura como água: Livros em situação de crise

Para a antropóloga francesa Michèle Petit, não é casual o encontro entre literatura e pessoas experienciando adversidades. Durante mais de 20 anos de pesquisa sobre práticas de leitura, centrada em países da América Latina como Brasil e Colômbia, ela percebeu  que pessoas em situação de vulnerabilidade – como pobreza, violência, ou refúgio – encontram nas histórias ficcionais um espaço de conforto e elaboração. 

“Muitos pesquisadores, em diferentes disciplinas, ou escritores, observaram que essa necessidade de histórias constituía talvez nossa especificidade humana e que existia conexão entre crise e narração. Vladimir Propp dizia que a narrativa representava uma tentativa de enfrentar tudo que é imprevisto ou infeliz na existência humana. É no que acredita J. Bruner, quando nota que o que nos impele para a narrativa “é precisamente o que não acontece como esperávamos”, relata Michelle em seu livro A arte de ler, ou como resistir à adversidade (Editora 34)

Para Volnei Canônica, especialista em literatura infantojuvenil e presidente do Instituto de Leitura Quindim, a pandemia é justamente este momento não esperado, que afeta a vida dos brasileiros com incertezas, medos e consequências subjetivas e reais no cotidiano.

“Ter acesso aos livros dentro de casa faz com que se possa guardar uma certa sanidade psicológica, pensar em possibilidades diferentes das que estão acontecendo da janela para fora. É muito duro saber que tem milhares de pessoas morrendo por negligência e ficar ligado a essa realidade apenas. A literatura é um refúgio e um respiro.”

Há nas narrativas ficcionais uma possibilidade de se pensar em futuros outros, o que é reconfortante numa situação incerta como a pandemia: “É possível lidar com o não concreto e com as incertezas da realidade nos espaços ficcionais. Por meio da projeção do humano, a literatura consegue ofertar cenários futuros. Nos deparamos com livros escritos no passado que nos levam até a pensar se o autor ou autora era vidente, tamanha a precisão”, Volnei complementa. 

O escritor e ilustrador Roger Mello é vice-presidente e um dos idealizadores  do Instituto de Leitura Quindim. Ele sempre trabalhou temas complexos como dor e luto dentro de seus premiados livros, dentre eles Carvoeirinhos e Meninos do Mangue. Em entrevista para o Rede Peteca, ele conta o que o motiva a desenhar e porque ele acha que a literatura infantil não deve fazer concessões à temas ásperos da vida. 

Isso é especialmente caro para as crianças e jovens, público atendido tanto na Biblioteca Comunitária Caminhos de Leitura como no Instituto de Leitura Quindim. A literatura potencializa a já fértil imaginação nessas idades e lhes dá subsídio para entender o que está acontecendo ao seu redor.

“A linguagem mais próxima da criança é a arte, o sentimento. Isso ter a ver com imaginário, com os simulacros que ela cria. A literatura tem um papel fundamental não só de fazer com que ela entenda este momento mas também de distração. É uma boa ocupação do tempo, onde a criança aprende, adquire repertório e conhecimento”, continua Volnei. 

Para Bruninho, que trabalha em territórios com escassez de equipamentos públicos mas com a presença de ávidos leitores, a literatura – e não só a dos livros, a encontrada também em slams – é fundamental na formação de crianças e jovens, principalmente quando eles se enxergam no que leem e conhecem autores cujo trabalho admiram. 

“A literatura, os saraus, os slams, têm o poder de criar outra possibilidade de construção de narrativa para além da história dada. Ler autoras e autores negros, por exemplo, oportuniza que um jovem negro se identifique, então a literatura tem esse poder de nos deslocar da histórica única em que a sociedade e o racismo estrutural impõem.”

crianças leem livro e brincam no instituto de leitura quindim

A imaginação fértil das crianças pode ser estimulada com literatura, que também ajuda a elaborar sentimentos, principalmente em situações de crise / Crédito: Instituto de Leitura Quindim

Em tempos de pandemia, como se sustenta a relação entre território e literatura? 

Localizado em Caxias do Sul (RS), o Instituto de Leitura Quindim é especializado em literatura infantojuvenil, com uma biblioteca de mais de 6 mil livros, além de outras ações de promoção da leitura. Ante o número baixo de casos de Covid-19 na cidade, o Instituto optou por continuar com os empréstimos, na esperança de que os livros criassem momentos de conforto e interação entre famílias. 

“Temos feito uma campanha de retirada segura, higienizando os livros e deixando-os em quarentena depois de emprestados, mas não impedindo sua retirada. Temos observado que os livros têm servido tanto para distrair as crianças das tantas telas durante o isolamento social, mas também para formar famílias de leitores, porque se antes a leitura ficava muito circunscrita ao espaço da educação, agora é na casa que ela se realiza.”

Já na Biblioteca Caminhos de Leitura, as ações – que não podem prescindir de ações solidárias no território – visam ampliar o direito humano à literatura. Além da entrega de livros e poesias com as cestas básicas, o IBEAC tem feitos ações com carros de som que passam levando poesias pelas ruas e também podcasts literários, sempre em consonância com o território. Bruninho relata: 

“Ler livro e ter acesso à cultura contribui para conscientização e leitura de mundo. Ler literatura que tem a ver com nós, inclusive literatura produzida por nós do território, permite nos deslocar da nossa realidade com visão mais ampla, mas também colocar o pé no chão e entendê-la. Então literatura para mim tem esse lugar de reivindicação de mundo: prazerosa mas também revolucionária!”