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Como a pandemia impacta crianças em situação de rua

Gradativamente, o programa Refugiados Urbanos – que atua com crianças e jovens em situação de rua – retorna ao trabalho de campo no centro de São Paulo após meses em isolamento social. A iniciativa da organização social Projeto Quixote tenta resgatar os vínculos entre educadores e atendidos, laço que depende de proximidade e escuta.

“Tanto nós quanto outros serviços estamos vivendo a mesma situação do impacto que é sair de máscaras e álcool em gel, aparatos que criam uma barreira física entre criança e educador”, relata Raphael Boemer, coordenador do programa. 

Organizações sociais como o Projeto Quixote trabalham com uma população invisibilizada e subnotificada antes mesmo da pandemia: só em São Paulo, há um total de 24.344 pessoas em situação de rua, com 3,9%. O levantamento da prefeitura, realizado em 2019, foi contestado pelos recenseadores, que acreditam que o número seja maior. 

“Em um contexto normal, a criança em situação de rua já está invisível. Por conta da normalização de algo que não é natural, muita gente quando as vê passa por cima mesmo, pula a coberta”, continua o coordenador. “Quando o educador ou serviço está conversando com a criança na rua, ele lança uma luz sobre essa invisibilidade, sensibilizando as pessoas e ajudando a desnaturalizar a situação. Isso ficou mais difícil durante a pandemia.”

Para agravar a já delicada situação, há uma ausência de políticas públicas voltadas especificamente para crianças e jovens em situação de rua. Segundo apuração do portal Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil, embora serviços de assistência social continuem a atuar durante a pandemia, elas não têm espaços voltados para a multifacetada população infantil, o que significa que as crianças muitas vezes não conseguem acessá-los. 

carrinho de criança na rua de são paulo

Expostas a todo tipo de violação de direitos, como trabalho infantil e fome, crianças e jovens precisam de políticas públicas específicas, em especial durante a pandemia / Crédito Rovena Rosa (Agência Brasil)

Pandemia

Rádio-rua é a expressão usada pelos educadores do Quixote para se referir à velocidade de informação entre crianças em situação de rua. Se algo acontece no Vale do Anhangabaú, não demora muito para que meninos e meninas da Praça da Sé fiquem sabendo. Mas segundo Raphael, as informações que extrapolam o território e a dura realidade do dia a dia demoram a chegar ou chegam atravessadas, como no caso da pandemia. 

“Notamos que várias crianças e adolescentes em situação de rua não entenderam muito bem o que é a pandemia, o que significa o Covid-19. Eles começaram a enxergar um monte de gente de máscara, passando líquido nas mãos. Foi e é preciso todo um trabalho de sensibilização para explicar a gravidade do que está acontecendo, ainda mais porque nos últimos meses, houve uma naturalização do discurso da doença que também chega às ruas.” 

A Fundação Projeto Travessia, que trabalha há mais de 20 anos com crianças em situação de rua e hoje atua com o projeto Lume Centro – que atende 31 crianças da região central da cidade a partir do resgate de vínculos – enfrenta desafios para garantir a profilaxia. “Para estes meninos, o isolamento social e a higiene não existem. Estamos falando de crianças que dormem aglomeradas em condições precárias, dividem tudo”, relata Tânia Lima, gerente de projetos da Fundação. 

Estão abertas inscrições do curso Diretrizes Nacionais de Atendimento de Crianças e Adolescentes em Situação de Rua. Fornecido pelo Projeto Quixote, o curso discutirá as diretrizes nacionais aprovadas pelo CONANDA e pelo CNAS para o atendimento de crianças e adolescentes em situação de rua, presentes em resoluções e notas técnicas, que consistem em princípios, conceitos e orientações sobre o trabalho cotidiano do educador e também colabora para nortear a implementação das políticas na área. É possível se inscrever no site até o dia 16 de agosto.

Ambos os coordenadores concordam que, nos primeiros meses da pandemia, houve uma debandada de crianças e jovens para suas casas no extremo da cidade, movidos pelo medo. Ao longo dos meses, elas voltaram para as ruas, pois a situação que provavelmente as obrigou a sair de casa em primeiro lugar se agravou.

“Ninguém está na rua porque quer. Crianças saem de casa porque a estrutura familiar não ajuda, porque se envolveram com tráfico e, na maioria das vezes, por questão de subsistência mesmo, por morarem em regiões empobrecidas. Atendemos meninos cuja casa não tem telhado, e quando chove, todo mundo tem que se envolver em saco plástico”, Raphael explana. 

Essas mesmas famílias vulneráveis correm o risco de ir para ruas com o agravamento das desigualdades decorrentes da pandemia, reforça Tânia: “Tivemos famílias cujas mães perderam o emprego porque não puderam fazer entrevista, outras porque os pais foram mandados embora, outras que trabalhavam com bicos e ficaram sem renda. Elas não estão conseguindo dar conta do aluguel ou da manutenção de água e luz.”

crianças brincam na calçada

Atendimentos do programa Refugiados Urbanos, que antes aconteciam em grupo, agora acontecem individualmente com cada adolescente e criança / Crédito: Aline Fernanda

Intersetorialidade e cuidados integrados 

Acostumados a fazer atendimentos em grupo, os educadores do projeto Refugiados Urbanos têm separado crianças e jovens para tratá-las individualmente. O trabalho continua a ser, apesar da dificuldade imposta pelo distanciamento, a partir do desejo da criança. 

“Cada criança tem seu ritmo. É preciso primeiro mostrar que ela é um ser que é visto, e depois estender isso para o cuidado e para criação de uma trajetória conjunta. A ideia é que a partir do que essa criança quer – seja ir pegar um sorvete, seja voltar para casa – criemos uma trajetória autônoma e confiante para que ela consiga deixar as ruas.”

Para dar conta do multifacetado jovem ou criança em situação de vulnerabilidade, o Projeto Quixote trabalha em parceria com a rede, em especial com a saúde. “Mesmo a rede que funciona no aspecto mais imediato consegue entender parte da história desta criança que nós não. Por exemplo, se ela está uma UBS (Unidade Básica de Saúde), ela geralmente baixa a guarda por uma questão de saúde. E aí juntos vamos construindo e juntando um pouco de informação de cada rede para construir o perfil desse jovem e saber como agir.”

Além de também trabalhar com interlocução com os diferentes serviços, a Fundação Projeto Travessia atua com os meninos em perspectiva de amplos territórios, entendendo que mesmo que ele esteja no centro, os serviços desta região e da região de onde ele veio precisam se acionar. 

“A criança precisa ser atendida, independente do território. No centro temos meninos de Francisco Morato, São Mateus, Jabaquara. O território não é impedimento, e a região central precisa pensar que se a criança precisa de educação e saúde, esses direitos têm que estar disponíveis no território onde ela está, mesmo que seja para ela conhecê-los. O território tem que ser uma porta de entrada para os outros”, defende Tânia. 

Como o trabalho do projeto Lume Centro pressupõe um atendimento integrado também para famílias, durante a pandemia, o projeto tem se desdobrado para atender às especificidades dos núcleos familiares vulneráveis: 

“Como ainda continuamos em isolamento social, o contato com os atendidos tem acontecido por meio dos serviços da saúde. Com as famílias mantemos contatos via ligações e Whatsapp. Ajudamos com o cadastro no auxílio-emergencial, que saiu no portal do Governo Federal de um jeito confuso. Foi realizada uma ação pontual de entrega de cestas básicas e também temos auxiliados as famílias a acessarem outros serviços da rede socioassistencial.”