Criar na cidade

Escola de ensino médio técnico tem currículo articulado à cidade

Uma das primeiras aulas que João Pedro Pereira Tic teve na FábricaEscola de Humanidades João Filgueiras Lima foi sobre escalas. Para entender o conceito, ele e os outros 20 estudantes que compõem a pioneira turma de Ensino Médio Técnico da escola tiveram que observar e desenhar frutas, orientados por educadores de áreas como escultura e física.

“Achei meio estranho no começo”, ele relembra. “Na minha escola antiga, aula de escala era só de matemática. Mas junto com os educadores, a gente debateu como a escala está no nosso cotidiano, nas estruturas naturais como as frutas, nos prédios, em todo lugar da cidade. O legal da aula é que tinha professores de várias áreas e pontos de vistas diferentes.”

Preparada para aulas presenciais, com três educadores de diferentes áreas na mesma sala de aula e oficinas práticas no galpão da escola, a Fábrica está realizando aulas remotas por conta da pandemia. A previsão é retomar as atividades presenciais no ano que vem.

Inaugurada em março deste ano pela mesma equipe e no mesmo edifício ocupado pela Escola da Cidade, faculdade de arquitetura localizada no centro de São Paulo, a Fábrica – Escola de Humanidades encabeça uma proposta de formação cidadã, ancorada nos princípios do saber e do fazer.

“Não é só ensino técnico, não é só ensino de segundo grau, é a junção dos dois, com uma forte e profunda pegada humanística”, esclarece Ciro Pirondi, diretor da Fábrica. “Filosofia, arte, literatura, ecologia e música se juntam a uma ideia de produção, da dimensão do fazer.”

estudantes de arquitetura na escola da cidade

Assim que a pandemia acabar, as aulas acontecerão no prédio da Escola da Cidade, no centro da cidade / Crédito: Divulgação

Recuperando o conceito de fábrica tanto do filósofo Vilém Flusser (que fala sobre o ser humano sendo definido por aquilo que produz) quanto do arquiteto João Filgueiras (que dá nome à escola e foi conhecido por suas fábricas, que não só produziam matéria-prima mas davam corpo à causa social da arquitetura), a Fábrica-Escola propõe, de acordo com Ciro, abandonar a “esquizofrenia das disciplinas para, finalmente, entrar no mundo real, de conceber e construir”.

Quatro oficinas ocupam os galpões da escola: metal, madeira, argamassa e prototipagem. “Nessas oficinas, os estudantes vão produzir objetos e ideias que sirvam à sociedade. Ali os jovens vão aprender a mexer nesses materiais, identificar os tipos de madeira, o que é o aço, e claro, a desenhar. Tudo passa pelo desenho na Fábrica-Escola”, relata Ciro.

Para contar o que os estudantes – que saem diplomados em Construção Civil e Design – podem fazer, o diretor relata possibilidades para depois da pandemia: dentro das oficinas, os jovens poderiam produzir uma argamassa sustentável que concorreria em um projeto de habitação social, ou como utilizar a madeira de árvores extraídas da cidade para produzir um mobiliário urbano.

Uma escola em simbiose com a cidade 

Os primeiros 21 estudantes da Fábrica-Escola provêm de muitos lugares da cidade. Alguns dos bolsistas foram selecionados dentro de territórios vulneráveis onde a escola atua, como ocupações no centro da capital.

João Pedro, assim como outros cinco estudantes, mora na Ocupação Nove de Julho, organizada pelo Movimento Sem Teto do Centro (MSTC). A história da luta de suas famílias por direito à moradia faz parte do cotidiano programático da Fábrica-Escola.

“Uma das primeiras aulas foi sobre direito à cidade. Tivemos até como convidada a Carmen Silva, que é líder do MSTC. A ideia era debater o tema, porque muitas pessoas não sabem que o direito à moradia está na Constituição, mas não é cumprido como deveria”, relembra João Pedro.

As aulas ocorrem das 9h às 13h30, guiadas pelos eixos FALEM (Filosofia, Arte, Literatura, Ecologia e Música). Como no exemplo das escalas, as aulas se dão por projetos, guiadas por uma multiplicidade de educadores e com participação ativa dos estudantes.

Como se estruturam as aulas da Fábrica - Escola de Humanidades / Crédito: Fábrica

Como se estruturam as aulas da Fábrica – Escola de Humanidades / Crédito: Fábrica

“As aulas não são intercaladas, são juntas. Na mesma sala de Filosofia tem Matemática, tem Psicologia. Sabemos que são adolescentes, o corpo tem que estar presente, então tem dança, tem meditação. É sempre uma convergência de saberes”, descreve Ciro.

Após a pandemia, a expectativa é que o território ao redor da escola, seus equipamentos e serviços, façam parte do cotidiano dos estudantes. “A escola se dá na cidade. Eles caminham por ela, vão fazer exercícios na ACM (Associação Cristã da Mocidade), vão comer no SESC, participam de atividades culturais em todo o universo do centro”, finaliza o diretor.