Transformar a cidade

Quem foi Paulo Freire?

No fim dos anos 50, começo da década de 60, o Brasil vivia um momento de turbulência politica, mas ao mesmo tempo de muita riqueza cultural. “A alfabetização passou a ser um movimento muito importante para relacionar cultura com educação”, explica o doutor em história e filosofia da educação, Sérgio Haddad em entrevista à Ilustríssima, da Folha, ao falar sobre esse período.

Matéria publicada originalmente na Fundação Telefônica Vivo.

E é neste contexto que Paulo Freire se apresenta na história, desenvolvendo um pensamento pedagógico e assumidamente político. Ele acreditava que o maior objetivo da educação era conscientizar o aluno e criou um método focado em jovens e adultos para alfabetizá-los de maneira consciente, discutindo os problemas sociais. A ideia era fazer com que os estudantes, a partir de sua realidade, percebessem quais são seus problemas e assim modificá-los.

“Para o Paulo Freire, era importante ensinar o adulto a ler para que ele faça uma leitura do seu mundo. Ler as palavras é ler o mundo”, diz educador catarinense Nado Gonçalves, que pesquisa há 30 anos a perspectiva freiriana aplicada ao Boi-de-mamão (manifestação folclórica típica de Santa Catarina) e à cultura popular.

Um dos princípios fundamentais de Freire era de que o educando, alfabetizado ou não, chega à escola levando uma cultura que não é melhor nem pior do que a do professor. “A gente parte do que o educando sabe, para que o educando possa saber melhor”, dizia.

De onde veio Paulo Freire

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, Pernambuco, em 1921. Veio de família de classe média, em que seu pai era militar e a sua mãe, dona de casa. Estudou Direito na Universidade do Recife, mas não chegou a trabalhar na área jurídica.

Em 1947, Freire foi trabalhar na diretoria de Educação e Cultura do SESI – o Serviço Social da Indústria de Pernambuco. Foi ali que começou a atuar com a alfabetização de jovens e adultos.

Naquela época, os adultos eram alfabetizados com os mesmos métodos utilizados pelas crianças, mas o pernambucano discordava deste tipo de ensino. A metodologia Paulo Freire consistia em uma maneira de ensinar conectada ao cotidiano dos estudantes e as suas experiências. Ela também se baseava no diálogo entre professor e aluno, transformando-o em um “aprendiz ativo”.

Nado Gonçalves defende que o legado de Paulo Freire vai muito além do método, com um princípio educativo de ética e respeito. “Eu não vou aplicar o mesmo método para uma comunidade pesqueira ou uma comunidade rural. Eu vou usar o mesmo princípio educativo. Respeitar o saber do outro e juntos construir o conhecimento”, afirma.

Paulo Freire saiu do SESI em 1957 e, nos anos seguintes, passou a assessorar campanhas de alfabetização em várias cidades do nordeste. A maior delas foi em Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, em 1963.

Angicos e a alfabetização de adultos

A pequena cidade de Angicos acabou se tornando uma palavra emblemática para todos aqueles que se interessam pela educação popular.

Lá foram alfabetizados cerca de 300 alunos, em 40 dias, com o método Paulo Freire. Nesta época, só se podia votar quem sabia ler e escrever, e por isto a campanha de alfabetização foi ganhando fortes proporções políticas. O presidente da época, João Goulart, convidou o educador para criar um plano nacional de alfabetização.

O projeto foi interrompido em 1964 por conta do golpe militar. Sob acusação de doutrinação marxista e traição, o educador foi preso por 72 dias. Exilado, ficou 16 anos fora do Brasil.

Alguns dos 380 trabalhadores alfabetizados pelo método de Paulo Freire em Angicos (RN) / Crédito: Acervo

Alguns dos 380 trabalhadores alfabetizados pelo método de Paulo Freire em Angicos (RN) / Crédito: Acervo

O exílio

Sérgio Haddad conta em sua obra “O educador: um perfil de Paulo Freire” que durante os anos de exílio o pensador nordestino passou por diversos países a convite de governos, universidades, igrejas e movimentos sociais.

Morou primeiro na Bolívia e depois no Chile, onde ficou por quatro anos, e escreveu a sua obra mais famosa A Pedagogia do oprimido. O livro fala sobre a proposta de uma pedagogia crítica, que vai além do método de alfabetização e considera educar como um ato político, propondo uma nova forma de relacionamento entre o professor, o estudante e a sociedade.

Em 1969, foi professor visitante na Universidade de Harvard e atuou no Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra. Por este departamento trabalhou por 10 anos com projetos de ação educativa em mais de 30 países – dos europeus aos africanos.

De volta ao Brasil, deu aulas na PUC-SP e na Unicamp, e, de 1988 a 1991, foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo.

Reconhecimento e legado

Hoje, Paulo Freire é considerado um dos mais célebres pensadores da história da pedagogia e está entre os autores mais citados em trabalhos acadêmicos do mundo.

O seu livro, a Pedagogia do Oprimido, é, de acordo com um levantamento no Google Scholar, a terceira obra mais citada em trabalhos na área das humanidades em todo o mundo.

Recebeu o título de patrono da educação brasileira em 2012 e foi o brasileiro mais homenageado da história por títulos de ‘Doutor Honoris Causa’, título de doutor concedido por causa de honra por universidades a pessoas eminentes, que não necessariamente tenham uma graduação acadêmica, mas que se destacaram em determinada área.

O pedagogo foi ainda indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1995 e ganhou o prêmio de Educação para a Paz da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (UNESCO) em 1986.

Além disso, mais de 350 escolas ao redor do mundo levam seu nome.

Em 1991, foi fundado em São Paulo o Instituto Paulo Freire com o objetivo de estender e elaborar as ideias do pensador. O instituto preserva os arquivos de Freire, realiza atividades relacionadas ao seu legado e atua em temas da educação brasileira e mundial.

“Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém educa a si mesmo: os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”, escreveu Paulo Freire.