Criar na cidade

Redução de danos por meio de arte e cultura: conheça a campanha Biricada

É possível falar sobre o território conhecido como Cracolândia*, no centro da capital de São Paulo, a partir de suas vulnerabilidades. Ali se materializa o abandono do Estado e as frágeis políticas públicas que atuam sobre a população local, misto de pessoas sem situação de rua, usuários de substâncias psicoativas e moradores da região. 

*Cracolândia é um termo em disputa: O neurocientista Carl Hart, atuante no combate à política de drogas no Brasil e no mundo, critica o uso da expressão, argumentando que ela reduz todo um espectro de população à questão do crack. Para coletivos que atuam na área, como “A Craco Resiste”, houve uma apropriação do termo cracolândia pelas pessoas da comunidade e isso tem que ser levado em conta.

Mas também é possível e necessário reconhecer que além das violações de direito que acontecem neste território, há uma produção de vida, arte e cultura. É esse o trabalho do coletivo Birico.Arte, grupo que articula geração de renda e redução de danos a partir da produção e venda de arte. 

“Surgimos a partir das demandas do território, das ideias e ânsias de alguns artistas que são ou estão nele, seja com sua própria arte ou militância”, conta Marina Barbosa, produtora da Birico.Arte e participante no coletivo Tem Sentimento, que trabalha com geração de renda e apoio à mulheres cis e trans. 

Do coletivo, nasceu a campanha Biricada. Artistas venderam prints de suas obras, arrecadando um fundo monetário que foi dividido igualmente entre os artistas – independentemente de quantas obras cada um vendeu – e para organizações que atuam no território, com o supracitado coletivo de Marina, o Pagode na Lata, É De Lei, Cia. Mungunzá e outros.

“A ideia era, além das doações para a Cracolândia em si, também ajudar artistas, que se encontram em uma situação complexa desde o começo da pandemia”, explica
Sol Casal, uma das artistas participantes. 

fotografia de joão leoci

Uma das obras da campanha Biricada. A autoria é de João Leoci / Crédito: Divulgação Biricada

Residência Artística Social: reconhecendo as potências da região

Os princípios da campanha de arte Biricada são ancorados na redução de danos, que constituem um conjunto de práticas e políticas voltadas para integralidade de sujeitos e reduzir as consequências adversas para saúde, sociais e econômicas do uso de drogas lícitas e ilícitas. 

Na primeira edição, alguns moradores do território foram contemplados com um auxílio-moradia, inspirada na política canadense Housing First, onde pessoas em situação de vulnerabilidade recebem ajuda de custo e um espaço de moradia para facilitar sua ressocialização. 

Para a segunda edição, Marina explica que a ideia é expandir o auxílio-moradia para seis pessoas da região, que serão contempladas no primeiro semestre de 2021: “Além da moradia, vamos usar o espaço do Teatro de Contêiner para criar uma pequena escola livre de artes, aberta não só aos contemplados mas também a qualquer pessoa. A contrapartida para que esses artistas recebam o auxílio-moradia é que eles topem fazer as atividades da residência artística, que terá aulas de marcenaria, pintura, serigrafia, história da arte e literatura entre outras”, conta Marina. 

A ideia não é, contudo, construir uma residência artística que suponha o que é melhor para as pessoas que habitam no território, mesmo porque ali se produz muita arte e ela é o referencial. São nomes como Badaross, artista plástico que vende suas pinturas na calçada da Cracolândia; MC Kawex, que compõe rap sobre a região; ou o poeta Fábio Rodrigues, que já morou no território e hoje milita por políticas públicas de qualidade. 

“Reconhecer a potência desse lugar vem da experiência de conhecê-lo. Quem não tem essa vivência tem uma visão deturpada que a mídia e o Estado fazem questão de passar, como se as pessoas não tivessem capacidade de fazer nada. O que a Cracolândia tem são pessoas diversas, desde usuários, pessoas em situação de rua, artistas, trabalhadores, que estão circulando, produzindo, tentando viver”, complementa Casal. 

Pintura do artista Badaross / Crédito: Divulgação Biricada

Pintura do artista Badaross / Crédito: Divulgação Biricada

Reconhecimento da cultura como parte da política de redução de danos 

As ações do Birico.Arte e que culminam na Biricada são baseadas em um trabalho duradouro de arte e cultura no território. Principalmente na pandemia, quando a já escassa atuação do Estado arrefeceu, equipamentos que atuam com cultura tiveram um papel primordial na garantia de direitos básicos das pessoas da região. 

A Cia. Mungunzá foi um deles. Há quatros anos realizando um trabalho teatral no espaço Teatro do Contêiner, sempre aberto à comunidade, os artistas optaram por migrar suas atividades artísticas para ambientes digitais e usar a sede para cozinhar, distribuir marmitas, kits de higiene e piteiras para os habitantes locais. 

“O nosso papel é olhar o território pautado nas humanidades. Nos utilizar da nossa força para denunciar a violência em diversas esferas do Estado e exigir políticas públicas que trabalhem em uma lógica de entender a subjetividade de cada pessoa. O Teatro do Contêiner, assim como a Birico, utilizam seus manifestos artísticos como redução de danos”, elucida Marcos Ferreira, artista da companhia. 

 

*Foto de capa por Jornalista Livres, em cobertura do Blocolândia, bloco de carnaval organizado por coletivos que atuam na região da Cracolândia em 2020.