Transformar a cidade

Coletivo Masculinidade Quebrada leva discussão de gênero para meninos de escolas públicas de SP

Depois de dois anos facilitando rodas de masculinidades em escolas periféricas, o educador Rafael Cristiano percebe o quanto os jovens têm necessidade desses espaços de partilha e acolhimento. Se nem sempre conseguem vocalizar esse desejo, seus corpos o expressam, no jeito como se mexem nas cadeiras, como olham para seus pares, quando cruzam os braços ou sorriem.  

“Se em um primeiro encontro, poucos meninos falam, muitos estão tímidos, no segundo é até difícil fechar a conversa, de tanto que eles têm para compartilhar. Há uma fome de assuntos de masculinidade na periferia, assuntos que já chegaram em outros lugares da cidade, na Academia.”

Foi em 2018 que o também professor de teatro se uniu aos colegas Belchior Emídio, Elânia Francisca e Raul Gomes para criar o coletivo Masculinidade Quebrada, projeto que leva encontros sobre masculinidade em escolas públicas do Grajaú, bairro da região sul de São Paulo.

A metodologia criada pelo grupo — já financiada pelo programa VAI e transformada em livro — utiliza o espaço de sala de aula e a temporalidade de uma classe para conversar com os jovens sobre temas como gênero, sexualidade, afeto, racismo e paternidade, entre outros.

“A ideia sempre foi de recolocar os meninos dentro das discussões de gênero, fazendo-os se entenderem como sujeitos nelas”, complementa Cristiano. Além das formações em escolas públicas, o coletivo já articulou uma série de encontros sobre masculinidades abertas ao público.

Por conta da pandemia, o Masculinidade Quebrada não pôde estar em escolas durante o ano de 2020. Nos dias 8 e 9 de dezembro, eles abrem uma roda de conversa para jovens entre 14 e 17 anos no formato online, para testar como podem continuar seus encontros em contexto de isolamento social. 

Um espaço de liberdade e acolhimento para meninos de territórios periféricos

Não é difícil ver no Grajaú a articulação de grupos feministas formados em sua maioria por mulheres negras e jovens. Elas pautam transformações importantes no território, e realizam rodas de conversa entre si e nas escolas. Estas articulações foram fontes de inspiração para a criação do coletivo Masculinidade Quebrada. 

“Não estamos inventando a roda com o coletivo, e sim dando continuidade a um trabalho de gênero de mulheres que há anos nos inspira”, confirma o educador. “Escolhemos a escola por uma necessidade de pluralizar a discussão num lugar que sentíamos ser muito necessário. Não adianta empoderar as meninas e os meninos continuarem com a cabeça em retrocesso dentro das discussões de gênero.”

Com participação máxima de 20 estudantes por vez, a ideia é que o espaço seja ocupado apenas por homens, para que eles possam se sentir livres e acolhidos na conversa. Rafael é o articulador, incentivando as reflexões. Belchior também participa, mas seu papel é fundamentalmente o de observação. Elânia, que faz doutorado em sexualidades, se encontra com o grupo depois, para que eles possam discutir sobre o tema e pensar em abordagens diversas.

A observação é fundamental nas rodas, principalmente nas primeiras, quando os jovens ainda não se sentem confiantes para falar. “Muitos meninos podem não se abrir na roda, ou preferir falar um com o outro, mas é possível perceber outras manifestações não verbais que também são respostas. O Belchior percebe as miudezas, e cada uma delas é um momento de reflexão para os educadores pensarem a próxima roda.” 

É praxe que no primeiro encontro o corpo de educadores proponha ao grupo que eles construam um boneco, que irá acompanhá-los durante toda a jornada. A feitura do personagem, as características físicas e subjetivas atribuídas a ele, dizem muito sobre o que os jovens pensam ou não pensam de si, e como constroem o próprio ideário de masculinidade. 

Este boneco acompanha os rapazes pela jornada entre temas como redes de afeto, sexualidade, violência sexual, racismo e paternidades. No sexto encontro, quando é proposto que se construa um novo boneco, Cristiano afirma que “nesse lugar de novas possibilidades, é possível ver, tanto nós educadores quanto eles, o que construímos juntos sobre a ideia do que é ser um menino no Brasil e nas periferias.”

masculinidades

O boneco é construído pelos participantes para sintetizar o que sentem, o querem construir ou reconstruir com relação às suas próprias masculinidades / Crédito: Rafael Cristiano

Olhar atento para masculinidades negras

A maioria dos jovens que participa das rodas é negra. Para os educadores, isso significa que para além de trabalhar masculinidades, é preciso discutir com eles o que é ser jovem negro em um país estruturalmente racista: a faixa etária é a mais vitimada por violência policial no país; segundo a PNAD Educação 2020, 71,1% dos jovens forçados a abandonar a escola para trabalhar são negros; são também os meninos negros os mais sujeitos ao trabalho infantil.

“A criação das nossas masculinidades, o processo de criar um homem, já é desumanizador. E quando esse processo é atravessado pela raça, é pior. Quando se pensa em jovens negros – e o Frantz Fanon fala muito disso – que tenta alcançar o ideal de um homem branco, a gente consegue ver o esforço de esconder afetos, ou às vezes achar que a violência é uma resposta. Pouquíssimas vezes em uma primeira roda os meninos falam de raça, mas depois que falamos sobre, ela permeia todas as outras discussões.”

O educador também aponta para uma “adultização” e hipersexualização desses jovens. Para exemplificar, ele se lembra de um rapaz que, por trabalhar fora de casa desde muito cedo e em um emprego de uso de força física, era considerado por seus pares já um homem experiente, adulto e sério. “Ao mesmo tempo, ele era super carinhoso, não performava essa masculinidade que projetavam nele, na cor dele.”

Outro diálogo que se mostrou necessário nas conversas foi a questão da paternidade. Se antes eram seis encontros, o desejo de falar sobre figuras paternas acrescentou mais um. “O pai sempre é uma figura muito controversa. É uma mistura de amor, mágoa, histórias de meninos que já são pais e não sabem muito bem o que fazer. Percebemos a necessidade de construir junto com eles paternidades outras, para além das que eles conheciam.”