Pensar a cidade

O que a diversa juventude brasileira tem a ensinar sobre produção de políticas e ativismo?

De 2006 até 2016, uma miríade de jovens mineiros, vinda de diversos territórios da cidade, lutou pela construção do Centro de Referência da Juventude (CRJ), em Belo Horizonte (MG). Para conquistar essa política pública, hoje referência de atendimento social e cultural na cidade, essa juventude empreendeu todo tipo de ativismo político: fizeram ocupações, participaram de audiências e outros espaços institucionais, dançaram passinho e desenharam o plano conceitual do centro a partir do seu desejo de frequentá-lo. 

Essa conquista política foi objeto do estudo de mestrado do jornalista e doutorando em psicologia Bruno Vieira. Com o título Ativismo Juvenil e Políticas Públicas: O caso do Centro de Referência da Juventude de Belo Horizonte, a dissertação, que também virou livro, buscava entender como a juventude brasileira produz políticas, tanto no nível institucional quanto no cotidiano. 

O resultado dessa observação, construída não só por Bruno mas, como ele também faz questão de frisar, por essa juventude mobilizada — em especial as jovens negras — é a constatação de que nada poderia ser mais plural do que o jovem brasileiro. Portanto, também é assim sua produção política. 

“Se antes era considerado participação política o jovem estar filiado em um partido, hoje tem outras formas. Fazer sarau, rinha de MC, é político. Ocupar um espaço público antes jogado às traças é uma forma de fazer política, de atuar por meio da arte, da cultura, e da ocupação da cidade.”

imagens da ocupação do CRJ

Imagens da ocupação do CRJ. O espaço era autogerido e havia uma programação cotidiana
intensa, com oficinas, palestras, apresentações culturais etc. / Crédito: Facebook Ocupa CRJ

Se houve um ano em que se pôde comprovar as múltiplas formas de se fazer política dos jovens, foi o de 2020. Em um cenário de pandemia e esvaziamento de políticas públicas, a juventude brasileira produziu política e impediu que outras fossem extintas. É possível citar exemplos como o adiamento do ENEM e a articulação comunitária que coletivos jovens fizeram para ajudar territórios vulneráveis durante o isolamento. 

Apesar dessas e outras atuações,não se deve atribuir o peso do mundo nos ombros ainda em formação. As mesmas desigualdades desveladas durante a pandemia são as que afetam e comprometem o desenvolvimento integral da juventude brasileira. São as juventudes negras e de territórios vulneráveis as que mais sentem a violência e a falta de acesso à direitos como educação, saúde, segurança e cultura. 

O Portal Aprendiz conversou com Bruno Vieira sobre sua dissertação de mestrado e as pistas que ela oferece para se pensar nessa geração como produtora de políticas e conhecimentos diversos — mas também como uma faixa etária a ser protegida. 

Portal Aprendiz: Bruno, você esteve presente na construção do CRJ, participando de vários momentos junto aos jovens. O que foi possível apreender dessa experiência com relação a produção política dessa juventude? (Em itálico, contextualização temporal da construção política do CRJ)

O Centro de Referência da Juventude foi uma política pública sonhada por jovens, principalmente ligados ao movimento hip-hop entre 2002 e 2006, mas engavetada até 2011. Neste ano, se recebe a notícia de que ele iria ser construído sem nenhuma participação da juventude que o sonhou, e ao sabor das temperanças políticas do Estado e do município.

Neste mesmo ano, houve toda uma articulação da juventude de BH, principalmente do Fórum das Juventudes da cidade, para conseguir uma audiência pública e poder pautar a construção e o conceito do CRJ. Ela aconteceu em outubro de 2011, mas em um formato de pouca participação popular. 

Foi interessante ver como a juventude se articulou para ocupar a audiência. Além de estarem presentes, representarem os que não podiam, eles fizeram silhuetas de pessoas da cidade. Elas foram penduradas dentro da audiência para dar efeito de uma sala cheia. E a sala foi ficando cheia, porque a movimentação atraiu outras pessoas. Nessa audiência, já se discutia os trâmites da construção do CRJ, sem participação dos jovens. Na que houve em sequência, já deu para perceber que haveria uma inviabilização da participação da sociedade civil. Ao invés de ser reativo às imposições dadas, o Fórum das Juventudes começa a se organizar para entrar em debate político sobre violências contra juventudes, fazendo movimentações paralelas e acompanhando o caso do CRJ de perto. 

Durante o período de 2011 e 2016, o CRJ começa a ser construído, em um espaço não escolhido pela comunidade — ele ocupa e destrói uma política pública de assistência social da cidade. Com as mudanças de gestão municipal e estadual, os jovens começam a ficar atentos para o destino do CRJ. É quando ele é inaugurado em um evento sem nenhuma participação, e com o prédio ainda em obras, que os movimentos juvenis voltam a se articular

Em 2016 tem todo um cenário de ocupações, tanto as ocupações contra o golpe vestido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, como um influxo de ocupações de 2015 que aconteceram nas escolas secundaristas. Conversando com uma das fontes, ela me confidenciou que haveria uma reunião entre as juventudes articulando uma ocupação caso ele não fosse aberto e a juventude não pudesse participar da sua conceitualização. Dito e feito. No dia 23 de maio, começa a ocupação do CRJ. 

A ocupação dura 28 dias, com as primeiras noites ocorrendo de forma tensa. Mas o mais interessante para mim é: existem duas movimentações políticas acontecendo. Há jovens ocupando o espaço público com sarau, dança do passinho, ensaios de dança. Ao mesmo tempo, tinha uma força da galera jovem, principalmente com o Fórum das Juventudes, que estava dialogando no âmbito institucional, com o Ministério Público, fazendo um trabalho de cutucar a prefeitura, o governo do estado, para liberar a abertura do CRJ. Foi um trabalho em dois planos, de política de ocupação propriamente dita e um plano institucional também acontecendo. 

Há uma vitória dessa ocupação. Os jovens são convidados a compor o Comitê Gestor que vai construir o plano conceitual do CRJ.  Em 2019, Vieira se muda de cidade e não acompanha mais este comitê gestor, mas até a presente data, essa articulação juvenil continuava a pautar a programação e o atendimento do CRJ. 

Em suma, estou falando da quebra de uma aparente dicotomia entre jovens apáticos ou jovens que participam plenamente da política. É possível participar politicamente, fazer seus corres, seus rolês, de uma forma que não seja prevista. Estamos acostumados a pensar em política de quatro em quatros anos, ou só na política formal. Mas um sarau é política. Uma rinha de MC é política. Congregar funk e passinho é político. Quando se ocupa a cidade, quando se coloca um povo marginalizado que está na ponta dentro dessa ocupação, se está fazendo política. 

Portal Aprendiz: Essa experiência então diz de um jovem brasileiro produtor de política, de um protagonismo juvenil? 

Bruno Vieira: Prefiro a palavra ativismo juvenil. Protagonismo tomou uma feição de individualismo. Não que em determinados conceitos não seja possível que alguém possa mudar sozinho sua realidade, mas penso que é necessária uma crítica à forma que o protagonismo tem sido visto e publicizado na sociedade. Muito por conta do paradigma neoliberal e da individualidade que centra tudo no sujeito, no indivíduo, na pessoa. A pessoa que é responsável por sua mudança, o que é muito cruel dentro de um universo desigual.

Coloco ativismo como termo que dá essa noção de coletividade. São ações conduzidas não por uma pessoa, e sim por uma coletividade engajada e que atua de maneira a incidir na sociedade e a buscar transformação. A mudança que narro na minha pesquisa, se pode dizer que ela se dá no campo das micropolíticas, mas olha só a repercussão que ela teve na macropolítica da cidade. 

É preciso pensar política no âmbito formal ou informal, ou como a pesquisadora colombiana Adriana Arroyo afirma, sobre a política cotidiana. Sobre isso, a argentina María Lugones diz sobre a subjetividade ativa, que é um fenômeno de “interações íntimas e cotidianas que resistem à diferença colonial”, que dá insumo para pensar esse fazer político juvenil. Tem o jovem que produz sarau, tem o jovem que entra em partido, que está fazendo intervenção na rua. Tem o jovem que recolhe cesta básica durante a pandemia. O que percebo é que o ativismo é a chave da análise conceitual e contrapõe o individualismo neoliberal que atinge o protagonismo como termo. 

Imagem do #crjénosso, primeiro seminário realizado para a eleição do comitê gestor e para a discussão da gestão do espaço Crédito: Bruno Vieira / registro pessoal

Imagem do #crjénosso, primeiro seminário realizado para a eleição do comitê gestor
e para a discussão da gestão do espaço
Crédito: Bruno Vieira / registro pessoal

Portal Aprendiz: Durante a dissertação, me parece que grande parte dos jovens que mobilizaram a construção e implementação do CRJ são jovens mulheres e negras. O que esse recorte racial diz para você da movimentação da juventude brasileira?

Vieira: É justamente a participação das mulheres e das pessoas negras que está no enfrentamento da noção heteropatriarcal da política. É um enfrentamento quando esses espaços de política são ocupados por mulheres negras, homens negros, pessoas trans. Essa participação feminina, feminista, de pessoas que destoam desse lugar consolidado, faz muito bem. Todos os corpos são passíveis e possíveis de fazer política, só que socialmente alguns corpos são referendados a fazer política, corpos masculinos e brancos. Os de mulher estão abaixo. Os corpos femininos negros então, nem se fala. 

Quando a gente enxerga a participação das mulheres na ocupação do CRJ é justamente um outro sentido do que é participação política, de que é política. É feito em vários âmbitos, tanto no privado quanto no de relações interpessoais e políticas. Existe um imaginário social de que pessoas negras devem estar em certos lugares, e não devem estar em outros. O assassinato da vereadora Marielle Franco tem a ver com isso, porque ela enfrentou um sistema de heterodeterminação. Este e os outros corpos estão sendo tombados por que, antes de serem ameaçados, ameaçam a ordem vigente. Por isso é cada vez mais importante a participação de mais mulheres, mulheres negras, pessoas trans, que se coloquem neste lugar de participação política. 

E aí a participação política lato sensu, seja querendo se candidatar a um cargo eletivo, atuando em formato de base. O campo de participação política é vasto e amplo. Ele é offline, agora ele está mais online. Mas de novo é importante lembrar que a política é feita de cotidianos, e que esses corpos historicamente marginalizados têm que pensar o poder político e contestá-lo. 

Portal Aprendiz: Você fala de uma estereotipação de uma juventude brasileira e também de uma romantização sobre essa geração durante sua dissertação. Você poderia explicar melhor?

O que acontece com relação à juventude no lugar da academia ou da juventude como estudo, é uma romantização da experiência juvenil. Não só romantização, mas estereotipação. Tem três visões de estudo sobre a juventude: jovens como atores políticos, jovens como seres em situação de vulnerabilidade social e jovens como partícipes da sociedade. Estas três visões se complementam. 

A visão do jovem como ator político são de estudos que acontecem majoritariamente nos anos 1960 e 1970 e que estão focados na participação política de jovens que atuam em universidades e diretórios acadêmicos. Já o recorte de estudos do jovem como problema, ou como vulnerável, são dos anos 1980. Por fim, o jovem como cidadão surge em estudos contemporâneos, metodologias participativas, antropológicas e sociológicas que o enxergam como partícipe e cidadão. 

Essa primeira vertente enxerga o jovem na militância, mas só o jovem branco, porque são pesquisas produzidas por essa juventude branca e rica que tinha acesso às universidades. E quem está olhando a classificação do jovem enquanto problema, está olhando o jovem periférico, o que está nas favelas, comunidades, palafitas. Então nos próprios estudos há uma polarização do imaginário em que o jovem branco é o que participa, e que o negro não. Essa terceira geração de estudos, que olha o jovem como partícipe, vem dizer que não é assim, e que a juventude é diversa. 

Bruno faz questão de frisar que toda construção da pesquisa sobre ativismos políticos dos jovens foi feita a base de uma bibliografia de mulheres negras e latino-americanas. É possível citar a colombiana Sara Victoria Alvarado e Ochy Curiel, a “chicana” Gloria Anzaldúa, as brasileiras Larissa Borges. Foram as mulheres jovens que faziam parte da ocupação a maior fonte de informação e articulação para o pesquisador.

Para qualquer campo social o risco é de uma certa generalização. Nesta última, o risco é pensar o jovem só como mudança social — sendo que a mudança social pode acontecer em qualquer fase da vida —, como a ideia de que ele irá transformar o mundo. É delicado isso. Temos que olhar a participação juvenil como transformadora, mas não depositar nelas as frustrações e esperanças de um mundo melhor. 

Portal Aprendiz: Há de fato uma mirada para esses jovens como produtores de política, mas também essa é uma categoria que precisa ser protegida, de políticas públicas fortes que amparem o seu desenvolvimento, que ainda está acontecendo. 

Bruno: Sim, porque senão sobrecarregamos o jovem, gerando frustrações nele e em nós. É importante visibilizar o jovem como ator político e social, que faz o seu rolê e participa da melhor maneira que pode. Não podemos deixar de complexificar a discussão, ou colocá-la em caixas, o que é uma tendência da nossa égide dicotômica ocidental, que só enxerga o sim e o não. Já dizia Itamar Assumpção, “entre o sim e não existe um vão”, e nesse vão cabe muita coisa. É nessas nuances, brechas, frestas, que é preciso prestar atenção.  

É preciso ter sempre em mente que é mais fácil para o jovem branco participar. Ele tem uma possibilidade de participação política desde cedo, nos grêmios, nos diretórios acadêmicos. Ao tempo que o jovem negro, assim que sai do ensino médio, tem que ir trabalhar e a participação política dele acontece muitas vezes de maneira tardia, depois dos 25 anos. Mesmo que ele tenha uma experiência que se espera de um jovem branco, com escola particular, classe média, faculdade, ela não será a mesma, porque ele vive em um país que estruturalmente vai racializá-lo e discriminá-lo. 

Não podemos falar da juventude em um balaio só, como se fosse uma massa amorfa. Tem diversidade e pluralidade. E um desafio das políticas públicas, da academia e até do próprio entendimento político dos jovens é a sensibilidade de entender a experiência política, estética e social do Brasil de maneira diversa. 

 

*Foto de capa de autoria de Martha Kiss Perrone, para a Revista Fevereiro