Pensar a cidade

Diversidade e coletividade como formas de existir no mundo: uma conversa com a poeta quilombola Ana Mumbuca

“Não gosto de falar do Quilombo de forma descritiva. Pois sempre nos descreveram de forma que não apresenta a nossa diversidade. Então toda descrição é limitada. O ideal é que cada um fosse ao quilombo e vivenciasse a diversidade, potência, fraqueza de cada território da liberdade”, pondera a poeta quilombola Ana Mumbuca quando convidada pelo Portal Aprendiz a falar sobre seu quilombo

O convite da escritora para conhecermos o território que adotou como sobrenome não é da boca para fora. Partilhar os saberes, tanto entre os seus quando os que são de fora, é uma inteligência social que se espraia na poesia de Ana e que permitiu que, durante muitos anos, o Quilombo Mumbuca, umbigado no Jalapão (TO), resistisse às tentativas de apagamento e extermínio produzindo vida e conhecimento.

Construído por homens e mulheres livres, migrantes da Bahia e do Piauí, o Quilombo Mumbuca está no município de Mateiros (TO), cercado por um cerrado em grande parte preservado por essa população. Para entender o que ensinam os diversos quilombos brasileiros, Ana Mumbuca faz primeiro uma defesa necessária sobre o conceito de quilombo. 

“Muitas vezes nos colocam na condição de descendentes de escravizados. Prefiro e exijo que sejamos reconhecidos, recartografados como descendentes de africanos livres que não aceitaram tal condição, por isso, construímos os nossos Quilombos. Observa, ninguém fala ‘quem  são os descendentes dos escravizadores’? Quando mencionam, no mínimo dizem que são descendentes dos colonizadores. Uma guerra de narrativa, como afirma o mestre Nego Bispo. Estão nos imputando a dor de ter que lembrar das dores que nos condicionaram.”

Ainda nessa disputa de narrativas, é preciso dizer que não existe nenhum quilombo igual ao quilombo Mumbuca. As quase 4 mil comunidades quilombolas existentes no Brasil são diferentes entre si, e uniformizar suas narrativas é dar continuidade à necropolítica e epistemicídio que vem dizimando as populações tradicionais no país.

paisagem natural do jalapão no tocantins

O Quilombo Mumbuca está umbigado na região do Jalapão (TO) / Crédito: Ismael dos Anjos

existência poética – poema de Ana Mumbuca*

Vidas poemadas
Poemas são sopro existencial
Existe vida que dança
Na dança da vida 

Como pássaros voantes caminho para os altos
Como raiz das sementes do Cerrado
mergulho profundo no chão
Somos a existência infinita da passagem por aqui
Sou quem sabe amarrar e soltar
Apropriada de nós
Gozando com a dor e na dor

Sou um pedacinho de muitos
Sou quem caminha e vira o caminho
Eu sou pelo que fomos
Para além do que fizeram com nós

As ameaças de fim de mundo para este quilombo foram e são muitas. Uma delas começa em 2001, com a construção do Parque Estadual do Jalapão, instituído sem nenhuma consulta aos povos tradicionais que nele habitam. A ameaça de expropriação sujeitou a permanência à extinção de saberes milenares, como o manejo do fogo, caça ou criação de gado livre no território. 

Ana, na época uma das poucas pessoas do Quilombo que sabia ler e escrever, foi uma das responsáveis por fazer a ponte entre sua comunidade e o Estado, articulando a permanência como também o reconhecimento do território como Quilombo. Ela descreve o processo na sua tese de mestrado, Uma Escrita Contra-Colonialista do Quilombo Mumbuca

“Ocorreram vários momentos tensos e reuniões, o meu papel era ficar junto com meu povo. Mesmo sem entender muito. Eu sabia ler e escrever e isso nos ajudava. Mesmo tendo que me ausentar do quilombo para estudar, eles davam jeito de eu participar de todas as reuniões. Desde então, tinha noção das minhas responsabilidades, pois era uma batalha que exigia outras defesas, não eram as mesmas da luta dos mais velhos, quando precisavam se defenderem dos animais silvestres. Por esse motivo, estudei sobre unidades de conservação, estudei o Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC) de forma minuciosa. E buscava forma de entender leis e normativas que nos amparassem e assim não sermos desapropriados.”**

Outra ameaça mais recente, e motivo do texto ‘voo das abelhas da terra’, publicado na revista Chão de Feira, diz da pandemia de Covid-19. Desde seu princípio, os quilombolas de Mumbuca se organizaram para um isolamento social completo, a fim de preservar seus idosos e a saúde da comunidade como um todo. O Parque Estadual do Jalapão fechou suas instâncias turísticas apenas no começo da pandemia e as reabriu em julho, sem consultar as comunidades quilombolas. 

Os quilombolas tentaram recorrer judicialmente da decisão, mas sem sucesso, se reorganizaram para prover um turismo consciente e saudável durante a pandemia, Mas por terem pressionado o Estado não reabrir o parque no ápice da pandemia, estão sofrendo boicote da maioria das agências turísticas. “Estão nos desqualificando, nos tirando do roteiro e nos difamando. Racismo no Turismo, e o turismo é uma importante atividade para nós.”

“Muitas vezes a nossa organização é tida como desorganização, e a nossa desorganização como organização. Eles [o Estado, quem está de fora do quilombo] querem sair vivendo e lucrando em cima da natureza e das belezas naturais. Esse sistema é engessado no sentido de nos coibir, nos invalidar, da gente não poder decidir sobre nós mesmos. Eles não suportam que o povo organizado, o povo quilombola, jalapueiro, diga o que quer e o que não quer.”

Mas é exatamente isso que o povo jalapueiro está fazendo: os quilombos têm se auto organizado para se proteger, divulgar a situação no Jalapão e militar por um turismo consciente por parte dos de fora, para que o façam com agências que reconheçam “os comportamentos desse território sagrado de liberdade”, como conclui Ana. 

No meio de resistência produzida na sua poesia e luta cotidiana, a poeta Ana Mumbuca disponibilizou um tempo para contar ao Portal Aprendiz algumas estratégias e saberes de vida da comunidade que a formou. 

Escrevivências coletivas na poesia quilombola 

Jacinta, Guardina, Laurina, Laurentina e Almerinda. Quando Ana Mumbuca escreve, escrevem também as mulheres do tronco familiar da poeta, versadas na contação de história e herdeiras de uma cultura onde a palavra tem imenso valor. Embora primeira mestra formal da família, Ana defende ser apenas uma das muitas guardiãs de saberes do quilombo Mumbuca. 

“A ideia de escrever é emitir para o mundo a visão de um povo, daqueles que não tiveram a possibilidade de escrever nesse formato, mas escreveram nos territórios, nos córregos, nos espaços de nossa comunidade, tiveram muitas formas de escrever poeticamente. Escrevo para continuarmos vivendo.”

“Toda essa escrita é compartilhada, conjunta. Veio daquelas e daqueles que não sabiam nem o que era escrever ou uma caneta, mas hoje estão comigo escrevendo. São escritas da minha mãe que é dita como analfabeta, no entanto é excelente leitora do céu, do tempo, do espaço, leitora desse mundo onde estamos de passagem. Se falasse que a escrita é minha, individual, estaria sendo egocêntrica. É uma escrita que vem de uma ancestralidade, de um povo que está continuamente me ensinando e me inspirando, assim como as abelhas, as formigas, os macacos. Não é escrita de uma pessoa só.”

Sua escrita é a de “um povo produtor de sentido”, como relata a escritora. Diferente dos não quilombolas, que vivem ansiosos de futuro, o conhecimento da oralidade quilombola, traduzida na escrita de Ana Mumbuca, produz respostas para os desafios do contemporâneo. 

“Quando dizemos que somos um povo do sentido, é dizer que nenhum sistema, por mais violento que seja, consegue tirar de nós o sentido do que fazemos. Por isso estamos vivos até hoje, pois temos esconderijos de significado. Mesmo que eles queimem nossos símbolos, eles nunca terão acesso, porque a sociedade não sabe como vivemos. Vivemos um agora, eles vivem um porvir que nunca irá chegar.”  

Poema de fogueira – Ana Mumbuca e Thomas Tanaka

Na fogueira
Falamos sobre as vidas
Vida que foram vividas
Vida que vivemos
Vida que viveremos
Lá na fogueira
Falamos da arte de viver juntos. 

Práticas coletivas fazem parte da organização do Quilombo Mumbuca / Crédito: Ismael dos Anjos

Práticas coletivas fazem parte da organização do Quilombo Mumbuca / Crédito: Ismael dos Anjos

O esconderijo: coletividade e defesa da diversidade como modos de existir no mundo 

“Não há como mapear uma dinâmica que a todo tempo tem uma forma, uma face de expressar-se e ser no mundo. Aprendo com nossos mestres que só não nos destruíram porque somos diversos. E quando nos definem, quando a sociedade externa ao quilombo define os quilombos brasileiros como uma categoria, caracteriza a gente de forma uniformizada, violenta a forma que vivemos.”, diz Ana

A diversidade é, portanto, estratégia de existência em um mundo que insiste em uniformizar corpos e saberes. Esse é um dos ensinamentos do quilombo Mumbuca, como Ana continua: “Cada família, cada clã do quilombo tem um jeito de se comportar. Se em cada quilombo existe uma diversidade, possivelmente de descendentes que não vieram do mesmo país da África, imagine em termos de Brasil, quando continentes existem e estão se editando, se reeditando. É uma diversidade enorme”. 

“Os quilombos conhecem profundamente seus membros, suas paisagens, pegadas de animais e das pessoas, sonoridades, plantas, seu mundo espiritual, habilidades características de cada indivíduo e clã familiar. A pedagogia do conhecer de muitos quilombos, que conheço e ouvir falar, o ato de colocar as crianças para comerem em um mesmo momento e em uma mesma vasilha, sendo supervisionado pelos olhares dos pais. Na minha casa nossos pais, faziam análises de cada um a partir do comportamento no ato de comer, averiguavam os mais diversos aspectos.”, escreve Ana em sua dissertação de mestrado. 

Essa defesa da diversidade acontece numa lógica contra-colonizadora, que é outro ensinamento que o quilombo Mumbuca oferece ao mundo: a possibilidade de compartilhamento. As culturas que existem dentro do quilombo Mumbuca são circulares. O que se tem, se divide. O que se conta, a palavra falada e que avoa, tem mais valor que um acordo escrito. Em um mundo de concentrações de riquezas, o quilombo Mumbuca resiste porque partilha, entre si, de e com a natureza. 

“Dentro da nossa lógica existencial cosmológica o compartilhamento faz parte da nossa índole. Compartilhamos até com o inimigo da gente, e por isso somos tidos como um povo besta. Se você chegar em um quilombo, a você é oferecido comida, água, o melhor do que se tem. E isso é uma ameaça para o sistema colonialista, um povo que compartilha o que sabe, sem comercializar e sem sentir-se superior porque está fazendo isso.”

“O compartilhamento do quilombo é diferente de troca. Se na troca só se troca o que se tem em valor semelhante, no compartilhamento objetos são trocados, sabendo da necessidade do outro, independente do que se tem, da abundância ou ausência. Essa dinâmica acontece  até entre rivais, que fornecem, que acolhem.”

“Nunca vi um sentido de adversário tão bonito que nem nos quilombos. Saber respeitar a dignidade do inimigo, de compartilhar o mundo. O mundo tem que saber ser divergente, e os quilombos ensinam isso para a gente. Palmares tinham outras pessoas, tinham indígenas, os brancos. E nesse mundo de má fé, que age para ser proprietário daquilo que jamais alguém poderá ser proprietário, que é a terra, o tempo, o quilombo continua fazendo de outro jeito, de um jeito lindo. A lógica capitalista nunca saberá o valor do prazer que é compartilharmos o que temos, com quem a gente respeita e merece viver tanto quanto a gente.”

O nome do quilombo faz muito sentido quando se pensa nas formas de organização e de defesa da diversidade. Mumbuca é o nome popular da abelha Geotrigona Mombuca, uma espécie sem ferrão que se nidifica debaixo da terra e que, como todo inseto social, vive na potência de organizar-se, proteger-se e partilhar. 

 

*Este poema foi publicado originalmente no Caderno n.117, da Editora Chão de Feira. 

**Na tese, Ana descreve as inúmeras concessões que os povos quilombolas jalapueiros tiveram que fazer para permanecer no seu território quando aconteceu a construção do parque. Isso incluiu se organizar em associações de modelos colonialistas e adotar práticas de escrita e de contratos que não faziam sentido para essa população primordialmente oral. A escrita de Ana é, neste sentido e como ela e o mestre Antônio Bispo dos Santos afirmam no texto Somos da Terra, primeiro uma imposição e depois uma possibilidade de ação contra-colonialista. “Em alguns momentos precisamos transformar as armas dos inimigos em defesa”.

*** As fotos que ilustram a matéria são do fotógrafo Ismael dos Anjos.