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5 lições de 2020 para pensar a Educação em 2021, por Gina Vieira

“Se assumirmos unicamente a narrativa de que só houve perdas, o que a gente perde é a chance de aprender”, afirma Gina Vieira Ponte. É a partir desse olhar que a professora na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal faz uma avaliação da Educação no ano de 2020 para encontrar os caminhos que podem melhorar as escolas para educadores, estudantes e famílias em 2021.

Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, Gina falou sobre como diferentes concepções de Educação afetam o balanço que se faz do ano passado, e apontou cinco grandes lições, que envolvem temas como educação antirracista, a garantia de direitos e a inclusão tecnológica.

Entrevista publicada originalmente no Centro de Referência em Educação Integral. A autoria é de Ingrid Matuoka.

“Precisamos discutir como, a partir dessa crise, podemos aprender a tornar a escola mais qualificada, mais comprometida com a aprendizagem, alinhada com a ideia de que temos responsabilidade social, e de que ela não caminha sem as políticas públicas que a apoiam”, afirma a educadora. Confira os principais trechos da conversa:

Centro de Referências em Educação Integral: Como você avalia o ano de 2020 para a área da Educação?

Gina Vieira: A concepção de educação que temos interfere na maneira como avaliamos esse momento. Para a nossa educação de base colonial, bancária e instrucionista, e que encara o processo educacional como entrega de conteúdo, realmente ficamos preocupados com 2020, e dizemos que foi um ano perdido que precisa ser recuperado.

Mas na minha concepção, que é da perspectiva integral, e inclusive do ponto de vista da BNCC, houve muitas perdas, sim, e vamos precisar de um plano de retomada das aulas e de um currículo de transição. Mas foi também um ano muito pedagógico, de muitos aprendizados, que precisam ser valorizados. As grandes crises precisam trazer grandes aprendizados, porque se assumirmos unicamente a narrativa de que só houve perdas, o que a gente perde é a chance de aprender.

A educadora Gina Vieira / Crédito: Twitter

A educadora Gina Vieira / Crédito: Twitter

CR: E que aprendizados foram esses? 

GV: Foram muitos, mas destaco alguns. O primeiro grande aprendizado foi em relação à importância do protagonismo docente, que são as pessoas que dão materialidade para tudo que a gestão faz e planeja, e das escolas para estruturação da sociedade. O fechamento delas impactou a vida de todo mundo, e evidenciou quanto ela cumpre um papel social importante, e que é um espaço de construção do saber, mas também de socialização e desenvolvimento integral, fundamental para que tenhamos uma sociedade mais diversa e equilibrada.

O segundo aprendizado foi em relação a evidenciar que a escola integra as redes que atuam em favor da proteção da infância e da adolescência. Não que seja papel da escola prestar assistência social, médica, psicológica, mas ela deve apoiar a defesa de direitos, como posto na LDB, no ECA e na nossa Constituição. Por isso é fundamental que a escola se mantenha em contato com as crianças para saber de suas necessidades, porque elas estão mais vulneráveis.

Uma professora querida contou que tinha uma aluna que não fazia as tarefas, e foi atrás: essa menina tinha sido despejada de um imóvel e estava morando em uma lona no meio do nada. A gente fala de escola na pandemia como se fosse possível no meio de uma crise as crianças seguirem aprendendo como se nada estivesse acontecendo. Então é preciso entender a escola como um braço fundamental das redes de apoio, e entender que a escola ocupa espaço privilegiado, e de muita responsabilidade, por chegar a todas as crianças e adolescentes antes dos outros entes.

O terceiro aprendizado foi entender com mais contundência que nossos problemas educacionais são, antes de tudo, problemas de desigualdade social, que tem origem no racismo estrutural. Então a nossa desigualdade tem cor.

“Nossos problemas educacionais são, antes de tudo, problemas de desigualdade social, que têm origem no racismo estrutural. Então a nossa desigualdade tem cor”.

O Brasil é um país que por 358 anos explorou, torturou e matou pessoas negras. Quatro quintos da nossa história foi escravocrata. Depois, o Brasil criou mecanismos e leis para impedir a inclusão social e promover o extermínio de pessoas negras, orientado pela lógica de eugenia. Esse racismo foi sistematicamente produzido por uma série de leis impostas após a abolição da escravatura. Negros foram proibidos de ir à escola, havia pena de morte apenas para escravizados, criminalizaram rituais religiosos diferentes do catolicismo e criaram uma série de impedimentos para que negros comprassem terras para cultivar e viver.

Não vamos resolver problemas educacionais sem políticas de recorte de raça. As crianças que estão em lugares mais vulneráveis são crianças negras, porque o racismo estrutural as empurra para essas áreas. Não à toa, o número de alunos pretos, pardos e indígenas que não acessaram o ensino remoto é 5 vezes maior do que o de brancos.

O quarto aprendizado diz respeito à inclusão digital de professores ser uma urgência inadiável. Falamos de pedagogia digital há anos e o mundo altamente tecnológico já se impôs, mas a tecnologia ter chegado à educação agora, com a pandemia, não quer dizer que trouxe inovação. Novas tecnologias a serviço de velhas práticas podem produzir uma educação ainda mais bancária, instrucionista e tecnicista, e o professor pode ser reduzido a um burocrata do currículo e o estudante a tarefeiro.

Promover pedagogia digital significa promover aprendizagem, ou seja, criar interação, vínculo, pertencimento, e colocar o estudante como protagonista do processo pedagógico, fazendo com que ele se sinta desafiado e livre para se expressar. Um exemplo nesse sentido seria mandar o conteúdo da aula previamente e usar o tempo da vídeoaula para tirar dúvidas, fazer um mapa conceitual e discutir os temas centrais. Para isso, precisamos de uma política de inclusão digital de professores que se dê de forma consistente, sistemática e com investimento público.

O quinto aprendizado foi em relação à importância dos vínculos para a aprendizagem. No Brasil existe uma falsa dicotomia: se uma escola for comprometida com a aprendizagem, não pode ser afetuosa e democrática. Mas isso faz parte de um imaginário coletivo formado a partir da educação bancária, colonial, instrucionista: ser afetuoso não é ser molenga.

E isso é importante porque o estudante só vai se abrir para o conteúdo quando se sentir abraçado, acolhido, pertencente, e isso vale para qualquer fase da educação. A formação humana tem que atravessar todas as práticas e vale para toda a estrutura educacional, das secretarias com os gestores e professores e dos professores com a família e os estudantes.

Por isso, a escola é insubstituível enquanto espaço presencial, porque para aprender é preciso se sentir pertencente, tem que ter relação com o território, com a comunidade. E quem consegue fazer isso é o professor. Daí a importância de termos um país que valorize o magistério e a carreira docente.

CR: Quais desafios vê para o ano de 2021, do ponto de vista da gestão pública, mas também das escolas?

GV: Há muitos desafios, mas a prioridade é estar atento ao risco de evasão e fazer uma busca ativa, porque muitos adolescentes foram obrigados a se inserir no mundo informal do trabalho. Outro ponto é que as redes se preparam para lidar com a questão da saúde mental, porque é grande a chance de encontrarmos crianças e adolescentes com quadro de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e outros adoecimentos. Então precisamos ouvir como foi a pandemia para eles.

“A prioridade é estar atento ao risco de evasão e fazer uma busca ativa”

Em suma, é preciso fazer os alunos voltarem para a escola, garantir que voltem com saúde mental e física, e em condição de continuar aprendendo. Por isso, o professor precisa de formação para identificar comportamentos que requerem encaminhamento para atendimento especializado. E assim a escola vai articulando ações integradas, porque ela não vai dar conta de tudo sozinha.

Do ponto de vista pedagógico, é interessante pensar em um trabalho integrado e intencional com um currículo de transição. Será preciso diagnosticar como os estudantes estão em termos de aprendizagem e bem-estar geral, e a própria instituição precisa fazer uma avaliação de como foi seu trabalho durante a pandemia, ouvindo professores e servidores, e sistematizando as aprendizagens acumuladas no último ano. Muitas escolas criaram processos e metodologias que não existiam antes, mas se não parar e refletir, esses aprendizados se perdem.

Outra questão é a necessidade de mais coordenação do Ministério da Educação, que precisa elaborar diretrizes básicas para orientar as redes, e de lideranças que garantam o bem-estar geral e social, porque precisamos de famílias empregadas, com renda, alimentação e moradia.

E vale reforçar: não basta falar sobre voltar para a escola ou não. Precisamos discutir como, a partir dessa crise, podemos aprender a tornar a escola mais qualificada, mais comprometida com a aprendizagem, alinhada com a ideia de que temos responsabilidade social, e de que ela não caminha sem as políticas públicas que a apoiam.