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Quando a Escola vira caso de Polícia

No último mês, as manchetes dos jornais mais uma vez destacaram a violência dos estudantes contra uma escola, no caso, a escola em que estudou o governador José Serra. As notícias informam que a depredação foi reação à violência da polícia, que jogou gás pimenta contra dois adolescentes, alunos da escola, que ali estavam fora do horário de suas aulas. O estranho destas manchetes é que o foco esteve sempre na depredação promovida pelos estudantes, jamais na violência da polícia. Os questionamentos ao governador foram em relação a seus sentimentos por aquela escola onde estudou, não em relação à sua responsabilidade sobre a conduta policial. O desfecho da história é ainda mais estranho: não a responsabilização do diretor por ter chamado a força policial para resolver questões pedagógicas, mas a expulsão (eufemisticamente denominada de transferência obrigatória) dos dois estudantes e de outros seis envolvidos na depredação. Será que a escola vai melhorar depois disso?

De fato, foram muito poucos os que estranharam as manchetes e o desfecho final da história. Chamar a polícia para resolver os conflitos cotidianos que envolvem estudantes e equipe escolar já é rotina na escola pública paulista, assim como a transferência obrigatória de estudantes considerados desajustados. A presença de policiais militares dentro do prédio escolar dando bronca em crianças que foram encontradas fora da escola no horário em que ali deveriam estar não mobiliza nem professores, nem gestores – é simplesmente parte da paisagem. Uma paisagem que foi inteiramente destituída de sua função educativa, daí que se delegue às forças policiais a tarefa pedagógica.

Pensando bem, não é estranho. Não é estranho que a escola e a polícia tenham a mesma concepção pedagógica, que ambas vejam os jovens – sobretudo os não brancos e pobres – como suspeitos e que contra eles adotem a velha pedagogia repressiva. Não é estranho porque a estrutura escolar muitas vezes não é também radicalmente diferente da estrutura dos equipamentos penais: autoridade exercida via discriminação e desqualificação, classificação como instrumento de controle da circulação, vigilância, espaços trancados, suspeitas, revistas, inspeções e humilhações. Quando se aproximam, a finalidade de ambas as estruturas – a escolar e a penal – é o controle dos comportamentos, nada mais que isso. Assim é que não devemos estranhar o fato de os diretores chamarem a polícia sempre que precisam de um reforço na ação repressiva.

Talvez o estranho mesmo esteja na reação da grande mídia que, em momento algum, questionou a atuação do diretor e do policial, apenas alardeou o “vandalismo” dos adolescentes. Não, mas isto também não é estranho. Há algum tempo, o tema educação na grande mídia já foi reduzido às questões pautadas pelos governos: testes, desempenho escolar, bônus para professores… Mas, a verdade é que nada disso vai devolver o sentido educacional às escolas e, sem sentido, para educadores e estudantes, a escola continuará presa ao ciclo discriminação-suspeitas-revistas-inspeções-humilhações-vandalismo-expulsões. Não, a escola não vai melhorar se não romper com este ciclo.

E como resgatar o sentido educativo da escola? A resposta é tão simples quanto gigante é a tarefa que lhe segue: estruturá-la para o conhecimento, não para o controle: espaços e tempos voltados para o trabalho colaborativo que caracteriza a pesquisa, compartilhamento entre todos das responsabilidades pelo bom uso dos equipamentos e recursos, participação ativa da comunidade na gestão escolar, promoção do vínculo entre educador e estudantes e de ambos com o conhecimento. Enfim, a boa e velha receita dos educadores capazes de lidar com sua comunidade sem jamais solicitar a presença policial.