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A inovação da viabilidade

Certa vez escrevi para o Aprendiz que quase tudo que é tratado como “novidade” no campo da educação é, na verdade, prosaico. O fato curioso era: quanto mais se quer inovar, mais se olha para trás – de fato para a educação clássica grega.

Dessa vez, a iniciativa de olhar para trás, e “inovar” o currículo do Ensino Médio, é do próprio MEC. A proposta do “Ensino Médio Inovador”, como vem sendo chamada, traz à tona antigas discussões (sempre pertinentes), nobres objetivos, mas poucas pistas de “como” atingi-los.

O mais substancial e delicado da proposta diz respeito justamente ao currículo. Alterá-lo, para o MEC, é uma forma de aproximar a escola da vida dos estudantes, do mundo do trabalho, estimular a produção científica e deixar o aprendizado mais prazeroso. A ideia é agrupar as disciplinas por áreas (tirando-das do isolamento e aproximando-as do conhecimento integrado): trabalho, ciência, tecnologia e cultura.

Trata-se, mais uma vez, do desenvolvimento da “paideia” clássica da educação grega;  ou mais recentemente, das propostas de Anísio Teixeira. Uma educação forte, republicana e democrática. Ideias aceitas unanimemente. Afinal, quem não deseja de fato um Ensino Médio público, gratuito, laico e universal que agregue cidadania, trabalho e vida acadêmica?

O Brasil, por exemplo, quer faz tempo. Desde os anos 90, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) disponibilizam tempo e trazem temas atuais para propostas trandisciplinares. Ou seja, para se aplicar o “Ensino Médio Inovador” proposto pelo MEC, não é necessário mudar sequer um verbo de qualquer lei atual.

Então, por que isso não foi feito ainda? As pedras repousam no meio desse caminho, ou seja, no “como fazer”.

Por exemplo, há uma lacuna enorme em como formar professores para lidar com os desafios de um currículo interdisciplinar e integrado. Se uma grande mudança não ocorrer paralelamente nesse campo, a formação de professores continuará sendo um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento de qualquer política pública em educação.

Outro ponto importante é que a invenção de propostas pedagógicas de integração de disciplinas (espinha dorsal da proposta) não é função do MEC; não há tempo nem dinheiro para isso. Por outro lado, a sociedade civil organizada, algumas escolas particulares e algumas do próprio ensino público desenvolvem há décadas programas de integração disciplinar em suas comunidades, muitos deles avaliados e muito bem sucedidos.  O problema é que a ponte que leva essas boas práticas às políticas públicas está esburacada.

A burocracia, o tempo de aprovação e os obstáculos de financiamento no poder público impedem que as soluções comunitárias incorporem-se como políticas. Mais uma vez o processo se inviabiliza em si, por mais nobres que sejam seus objetivos finais.

Por fim, a sociedade brasileira corre o risco de ficar repleta de boas intenções e carente de ações concretas. O risco é o sonho ter vida curta.  Hoje, um projeto na área educativa será mesmo inovador se concentrar forças em sua viabilidade, mantendo o prumo nos objetivos.  Essa é uma árdua tarefa para que sociedade civil e poder público devem concretizar conjuntamente: antes da aprovação no Conselho Nacional de Educação, no fim de junho, a proposta está aberta para discussão.

O documento Ensino Médio Inovador pode ser lido na íntegra aqui.