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Royalties do petróleo devem ser para educação, tecnologia e ciência, afirma presidente da SBPC

Cortar o orçamento para o Ministério de Ciência e Tecnologia significa seguir na contramão do desenvolvimento do país. A conclusão é da presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader. “Investimento em educação, ciência e tecnologia proporcionará o avanço que vai manter o Brasil.”

Em entrevista exclusiva ao Portal Aprendiz, ela ressalta que os royalties do pré-sal são uma boa saída para angariar recursos destinados à educação e pesquisa.

Hoje, a ciência é multidisciplinar, permeia muitas questões, segundo Helena Nader.

Neste domingo (10/7), começou a 63ª Reunião Anual da SBPC, em Goiânia (GO). Mais de 400 cientistas do país, além de autoridades governamentais, participam de debates com o objetivo de discutir políticas públicas para a área. O evento terminará na sexta-feira (15/7).

Estão previstas 148 atividades, entre elas conferências, mesas-redondas e simpósios. Boa parte das discussões estará relacionado ao tema central do evento: “Cerrado: água, alimento e energia”.

Portal Aprendiz – O tema central da reunião este ano é o bioma cerrado. Por que esta escolha?

Helena Nader – Rios importantes passam pelo cerrado. O país é grande produtor de alimento proveniente de pecuária e agricultura também desse bioma. Além disso, a tragédia que aconteceu no Japão traz para discussão a energia nuclear. Que outras fontes o Brasil pode ter? Os bicombustíveis, por exemplo, estão ligados ao cerrado. Belo Monte também será o tema de um dos debates.

Além disso, o mais importante é saber a relação do homem com tudo isso. Não teremos a presença de pessoas apenas das ciências pesadas (biológicas, engenharias, tecnológicas e saúde), mas as humanidades também vão participar.

A estudante de pós-doutorado em ciência biológica da UFPE, Danielli Dantas, extrai óleo para fabricação de biodiesel.

Aprendiz – Como a ciência e a tecnologia podem contribuir com este tema?

Nader – Antes tínhamos “gavetas” dentro das ciências. Em uma, estavam as tecnológicas. Na outra, a área da saúde. Em mais uma, as humanidades. Mas hoje, a ciência é multidisciplinar e permeia muitas questões. Quando se discute sobre usina hidrelétrica, fala-se do impacto econômico, ambiental, mas também social. Antes, a ciência era o “eu comigo mesmo”. Agora, várias áreas juntas buscam melhorias para a população.

Aprendiz – Houve avanços nas publicações científicas nos últimos dez anos?

Nader – Sim. Vou dar um exemplo da área da saúde: a idade média do ser humano passou de 30 para 70 anos. Isso significa que melhorou a qualidade de vida. Por quê? Melhorou alimentação, higiene e saneamento. Não é avanço de um individuo, mas do conjunto de pesquisas documentadas que fizeram a ciência chegar a isto.

Dados da newsletter Science Watch, da Thomson Reuters, mostram que, entre 1989 e 2007, o número de artigos científicos com pelo menos um autor residente no Brasil aumentou seis vezes, passando de 3.176 para mais de 19 mil. Com isso, a participação brasileira na literatura científica mundial progrediu de 0,56% para 2,02%.
 Aprendiz – Comparando o Brasil com outros países, estamos bem em pesquisa?

Nader – O Brasil ocupa a 13ª posição no mundo, entre mais de 200 países, em produção cientifica indexada em periódicos internacionais. Se esmiuçar, percebemos que é o primeiro em algumas áreas, como doenças infectocontagiosas – doença de chagas, por exemplo –, que são típicas de países em desenvolvimento.

Aprendiz – Que áreas tem crescido em termos de pesquisa em ciência e tecnologia?

Nader – Houve crescimento da ciência como um todo, em especial nas áreas das biológicas, biomédicas e saúde. No entanto, precisamos investir mais na área das tecnológicas, incluindo as engenharias.

Aprendiz – Pesquisas na área da sustentabilidade precisam melhorar?

Nader – Claro. A sustentabilidade vai fazer parte de todos os discursos. Em agricultura tropical, somos campeões. Um grupo está até indo à África para apresentar tecnologias de ponta. O problema é que enquanto o grande produtor tem acesso, o pequeno não.

Aprendiz – O que pode ser considerado uma limitação para as pesquisas brasileiras?

Nader – Uma das dificuldades, por incrível que pareça, é a língua. A maioria dos nossos estudantes não fala inglês. Não adianta, a linguagem da ciência nos artigos científicos não é o português. As publicações em nosso idioma ficam limitadas a certo número de pessoas interessadas.

O Executivo cortou, no início do ano, R$ 1,7 bilhões do Ministério da Ciência e Tecnologia. O montante que seria destinando a investimentos e custeio na área correspondia a 23% do orçamento anual da pasta.

Com a redução, o Ministério terá aproximadamente R$ 6,4 bilhões para este ano. Também poderá contar com R$ 200 milhões adicionais em emendas parlamentares que o Executivo não tocou. Em 2010, o orçamento da pasta foi de R$ 7,8 bilhões.

Aprendiz – Como avalia as políticas públicas voltadas para a educação, ciência e tecnologia?

Nader – No segundo mandato do governo Lula houve expansão das universidades, o que está trazendo um impacto local importante nas regiões. Agora, em ciência e tecnologia, a situação está dramática. O corte feito no início do ano foi muito grande.

Do jeito que o mundo está avançando, um dia sem investimento causa impacto de muitos anos. Então, você sempre tem que correr para não ficar para trás, ou pelo menos para ficar no mesmo lugar.

Aprendiz – O que poderia ser feito para mudar esse curso?

Nader – Os royalties do pré-sal são uma boa saída. Não devem ser pulverizados, mas destinados à educação, ciência e tecnologia, pois isso sim proporcionará o avanço que vai manter o país. Estamos perdendo talento em todas as fases da vida de um jovem por falta de investimento.

Fui acompanhar os estudantes de pós em uma atividade, próximo do Jardim Ângela, [na zona sul de São Paulo (SP)]. Sabe qual era o sonho de um professor? Ter um microscópio! Não havia nenhum na escola.

Cursando pós-doutorado na Unifesp, a estudante Carolina Córdula observa o funcionamento de um método de separação entre mistura e proteína.

Aprendiz – O país deveria gastar mais com investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D)?

Nader – Os investimentos aumentaram, mas está muito aquém. Se olhar os outros países do BRICs (Rússia, Índia e China), os EUA e a África do Sul, percentualmente estamos atrás. O Brasil tem condições para ser um país que dá diretriz, mas precisa de mais educação. Com isso, ele vai fazer a ciência e a tecnologia.

Na época da crise dos Estados Unidos, sabe qual foi uma das medidas do [presidente Barack] Obama? Aumentar os investimentos em ciência e tecnologia. Claro que um país como o Brasil tem que ponderar e fazer um equilíbrio, mas nunca cortar orçamento para esta área.