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Prova ABC revela desigualdades na educação brasileira

Dados divulgados nesta quinta-feira (25/8) sobre leitura, escrita e aprendizado de matemática de alunos que concluíram com êxito o 3º ano do Ensino Fundamental (antiga 2ª série) revelam que o Brasil ainda é um país muito desigual quando o assunto é educação. Foram constatadas diferenças substanciais no ensino oferecido nas cinco regiões do país e entre as redes pública e privada.

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-Crianças no 3º ano do fundamental têm dificuldade para ler horas em relógio

Fruto de uma parceria entre o movimento Todos pela Educação, o Instituto Paulo Montenegro/IBOPE, a Fundação Cesgranrio e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais (INEP), a avaliação, conhecida como Prova ABC, foi aplicada no primeiro semestre de 2011,  em 6 mil estudantes das capitais brasileiras, incluindo o Distrito Federal. Para apurar os números, a equipe utilizou a escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).

Os resultados apontam que apenas 42,5% dos estudantes da região Nordeste e 43,5% dos da região Norte conseguem ler um texto e identificar sua temática, os personagens e suas características, além de estabelecer relações de causa e consequência a partir da história. Esse resultado é pelo menos 20% maior no Sul (64,6%), Centro-Oeste (64,1%) e Sudeste (62,8%).

O mesmo fenômeno pode ser observado na escrita. Numa escala de 0 a 100 pontos, em que o mínimo esperado é 75, os estudantes do Norte e Nordeste alcançaram uma média de 58,9 e 50,2 pontos, respectivamente. Já no Sudeste, responsável pelo melhor resultado, a média foi de 77,2, seguido das regiões Sul (74,5) e Centro-Oeste (73,9).

Quando avaliadas as habilidades em matemática, apenas 28,3% dos alunos da região Norte e 32,3% do Nordeste são capazes de realizar operações básicas de adição e subtração, ou ainda calcular troco, ler as horas e identificar os lados de um polígono. No Sul esse valor sobe para 55,6%, seguido por 50,3% do Centro-Oeste e 47,9% do Sudeste.

Curiosidades sobre a Prova ABC

– Foram 10 cadernos diferentes para cada disciplina.
– Em cada sala, metade resolvia uma prova de português e a outra metade matemática.
– Foram contratados aplicadores externos, ou seja, não foram os professores os responsáveis por dar o teste.
– Na prova que avaliou a escrita foi pedido aos alunos que escrevessem uma carta a um amigo, relatando o que haviam feito nas férias.

“Há uma grande desigualdade educacional no país, que começa logo nos primeiros anos e tende a se ampliar no Ensino Médio”, afirmou a diretora-executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz. Segundo ela, o desafio da educação brasileira não é apenas avançar na qualidade, mas também superar as desigualdades.

Públicas e privadas

A avaliação mostra ainda que existem discrepâncias entre os resultados obtidos pelos alunos da rede pública e da rede privada de ensino. No teste de escrita, a média nas escolas particulares foi de 86,2 pontos, enquanto nas escolas públicas ficou em 62,3, em uma escala de 0 a 100. O esperado é que os alunos do 3º ano do ensino fundamental alcancem pelo menos 75 pontos.

Em leitura, a média no sistema privado foi de 216,7 pontos contra 175,7 obtidos no ensino público.  Em matemática essa diferença é ainda mais expressiva: uma média de 211,2 contra 158 pontos. Para ambas as habilidades, a escala utilizada vai de 100 a 375, sendo que a pontuação esperada para as crianças que concluíram com êxito essa etapa do ensino seja de 175 pontos.

Soluções

O representante do Inep, João Horta, acredita que para garantir o direito à educação desde cedo é preciso investir na formação inicial  e continuada dos professores. “Existe muita dificuldade entre os alunos de pedagogia em trabalhar, por exemplo, a matemática. É preciso que o professor saiba o que vai ensinar e que tenha condições e ferramentas adequadas para isso.”

Para Horta, os resultados da Prova ABC podem ajudar a definir o que precisa ser priorizado ao longo da formação do professor. “O Inep é responsável por levar esses dados de maneira compreensível aos professores e já está tentando fazer com que os significados desses números cheguem até eles”.

Por outro lado o consultor da Cegranrio, Rubem Klein, avalia que “se houvesse um foco maior das políticas na educação infantil esse resultado poderia ser outro”. Ele ressaltou que já está comprovado que os estímulos recebidos na etapa imediatamente anterior ao ciclo de alfabetização são fundamentais para o futuro escolar da criança.

“O investimento em educação infantil é o que traz mais retorno a médio e longo prazo. Quanto mais cedo essas distorções forem corrigidas, menos elas se prolongarão na cadeia de ensino”, acrescentou Priscila Cruz.