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Políticas públicas de leitura devem incluir professores, afirma Boldarine

Boldarine: "É necessário que os professores sejam leitores e bem instrumentalizados para que a prática da leitura seja bem realizada."

O aprendizado da leitura é uma prática formadora das relações, que ocorre na escola, mas também em casa, com a família, e nos demais ambientes sociais de convívio.

Nesta perspectiva educadora, a professora de História da Leitura, Rosária Boldarine, conversou com o Portal Aprendiz e lembrou que, embora longe de fazer parte do cotidiano do brasileiro, a leitura deve funcionar como aquisição de conhecimento. Em tempos de difusão maciça de informações, ela ressalta que “adquirir informação é bastante diferente de adquirir conhecimento”.

Boldarine, que é doutoranda em educação pela UNESP e atua na formação de docentes, acredita que as políticas públicas de leitura devem estar voltadas também aos professores. Para ela, “seria necessário um esforço significativo por parte do poder público na formação e aperfeiçoamento de professores de modo geral e os de língua portuguesa, em particular”.

Na entrevista concedida ao Portal Aprendiz, Boldarine fala ainda sobre a formação de novos leitores, a constituição do sistema escolar nacional e a leitura nas universidades. Confira abaixo os melhores trechos:

Portal Aprendiz – O que determina a escolha do que se lê?

Rosária Boldarine Tudo depende do objetivo que se tem em determinado momento. A leitura pode ser realizada para aprofundamento de um determinado assunto, para melhor conhecer algo, para aquisição de cultura geral, para entretenimento. Porém, não basta ler indiscriminadamente, é necessário que se selecione a melhor leitura para cada objetivo. Este procedimento de seleção vai ficando cada vez mais fácil com a aquisição da competência leitora, que é a capacidade de estabelecer um diálogo com os textos que se lê.

Aprendiz – E no caso da sala de aula, para quem está descobrindo a leitura?

Boldarine Imaginando o aluno que não está totalmente familiarizado com todos os tipos de leitura poderíamos pensar num trabalho que indicasse todas as possibilidades que a leitura apresenta e familiarizá-lo com os diferentes tipos de texto. Caso este procedimento seja bem realizado, a seleção do que se vai ler pode tornar-se mais natural.

Aprendiz – Lê-se por prazer?

Boldarine – É preciso ter em mente que ler é um processo bastante complexo. O prazer é uma sensação, pode ser que o leitor iniciante se paute apenas nesta sensação para escolher suas leituras, porém isto só não basta. Nem sempre podemos ler apenas aquilo que nos dá prazer, por exemplo, alguém que está escrevendo uma tese ou dissertação muitas vezes se depara com textos teóricos que apresentam um grande grau de dificuldade. Num primeiro momento a leitura não será prazerosa. Até que se consiga o entendimento do dito pelo autor pode haver sofrimento, porém o leitor competente saberá ultrapassar esta fase e atribuir sentido àquele texto. Aí entra a questão da necessidade. Talvez ao ter consciência de que nem sempre a leitura é por prazer o indivíduo consiga uma melhor prática leitora.

Aprendiz – Por que ainda lê-se, em média, menos no Brasil do que em outros países, até vizinhos, como Argentina e Uruguai?

Boldarine – Graças ao elitismo que sempre esteve presente no projeto de construção de nosso país,  fomos também um dos países mais lentos e atrasados na implementação de um sistema escolar que abrangesse o maior número possível de pessoas. Somente a partir dos anos de 1970 temos, no Brasil, um incrível movimento de democratização do acesso à escola. Porém este movimento não veio acompanhado de políticas institucionais eficazes para a boa formação. Diante da nova clientela ampliada, os programas institucionais não têm apresentado mostras de solucionar os problemas encontrados na alfabetização e no letramento; problemas que prosseguem durante todo o ensino fundamental e médio. Não basta apenas alfabetizar, o aluno deveria sair da escola com uma sólida formação, o que não temos visto. Isto talvez explique porque lemos tão pouco. A escola deveria, fundamentalmente, contribuir para o aumento do capital cultural dos alunos, propiciar aos alunos a percepção de que a leitura é mais do que apenas decorar um texto para responder questionários, mostrar que decodificar não significa ler. Deveria ser  estimular a visão da leitura como uma prática social.

Aprendiz – O acesso às obras bastam para se tornar um bom leitor? Por quê?

Boldarine – Não. A leitura tem que ser significativa, o leitor deve atribuir sentidos ao que lê. Com os programas institucionais o acesso aos livros ficou muito maior, todos os anos as escolas públicas recebem grandes quantidades de livros, tanto didáticos quanto paradidáticos. Porém, pelas últimas pesquisas, vemos que a leitura ainda está longe de fazer parte do cotidiano do brasileiro. Isto talvez se deva a falta de leitura que tenha sentido para o leitor. Não basta ler, o escrito tem que funcionar como aquisição de conhecimento. Se o leitor não vê sentido naquilo que lê, não adianta ter acesso a todas as obras disponíveis. Adquirir informação é bastante diferente de adquirir conhecimento.

Aprendiz – A escola pública brasileira é eficiente na formação de leitores? Qual sua avaliação das políticas públicas voltadas ao incentivo à leitura e postas em prática nas salas de aula do ensino básico hoje?

Boldarine – Creio que a questão das deficiências encontradas na leitura não seja um problema apenas da escola pública, mas da comunidade escolar em geral. A escola privada tem também muitas dificuldades em formar leitores competentes. A questão é que, como os alunos da escola privada apresentam um maior capital cultural anterior à entrada na escola, talvez haja certo mascaramento da situação. Não penso que, neste ponto, o abismo entre a escola pública e a privada seja tão grande. Com relação às políticas públicas, algumas medidas vêm sendo tomadas, mas pelo que observamos o alvo não está sendo atingido. Me parece que seria necessário um esforço significativo por parte do poder público na formação e aperfeiçoamento de professores de modo geral e os de língua portuguesa, em particular, para que a eficiência dos programas fosse maior. É necessário que os professores sejam leitores e bem instrumentalizados para que a prática da leitura seja bem realizada.

Aprendiz – Quais os maiores desafios para expandir a prática da leitura entre universitários?

Boldarine – Que a leitura fosse vista realmente como uma prática. Os alunos chegam à graduação sem a prática leitora, é um problema que vai sendo empurrado desde as séries iniciais até a graduação. O problema não é apenas ser um universitário que não lê, o problema é não ser um leitor. Logo, a questão é bem anterior à chegada na universidade. Se as políticas de incentivo à leitura fossem mais bem realizadas, possivelmente o desafio na universidade seria bem menor. Além disso, a leitura de excertos de textos e resumos, amplamente disseminados no meio universitário, também contribui para a pouca leitura. A leitura pode contribuir para o aumento da criticidade, pode propiciar um olhar que não permaneça no senso comum, fatores imprescindíveis para se entender e melhorar a sociedade. Papel que a universidade, ao que parece, também não está conseguindo cumprir.