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Autonomia da Escola por Projetos Pedagógicos Comunitários

No último dia 19, durante o I Salão Internacional do Livro de Suzano, o público conheceu um pouco da experiência do Bairro Educador de Heliópolis, compartilhada por sua gestora Arlete Persoli e pelo diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos Salles, Bras Rodrigues Nogueira. Antes de contar a sua história, é bom que se diga que Suzano, cidade da grande São Paulo que só tem uma livraria, organizou um salão internacional do livro porque a Secretaria da Educação está com um claro propósito de envolver os bairros e a cidade no processo educativo das crianças de lá. Para visitar o salão, as crianças receberam vales-livros, que eram gastos como queriam, tendo assim mais uma oportunidade educativa.

Daí a importância de conhecer a experiência de Heliópolis. Esta comunidade, localizada no distrito de Sacomã, sudeste da cidade de São Paulo, é uma área bastante densa, com 125 mil habitantes. Fazendo divisa com São Caetano, a região que começou a ser ocupada nos anos 70 foi fortemente influenciada pelos movimentos sociais dos anos 80, aprendendo a se mobilizar e organizar para reivindicar e conquistar seus direitos. Já foi considerada a maior favela do Brasil, mas passou por um processo de urbanização e hoje tem estatuto de bairro. A maior parte dos domicílios tem abastecimento de água, acesso a rede de esgoto e a rede elétrica, as ruas são pavimentadas, mas a maioria das famílias ainda está na linha da pobreza, vivendo com até dois salários mínimos.

E este processo de luta e conquistas teve na escola uma importante parceira. Desde que assumiu a direção, em 1995, Bras articulou-se com as lideranças locais para transformar a Campos Salles em um centro de luta pela efetivação dos direitos das pessoas. Com esta clara missão em mente e o vínculo cada vez mais forte com a comunidade local, Bras foi aos poucos constituindo um grupo de professores aliados, do conjunto daqueles que, por concurso, tinham direito à vaga no corpo docente da instituição, mas não se comprometiam nem com os estudantes nem com a comunidade. O grupo de professores aliados, aos poucos, tornou-se uma equipe e esta equipe, em conjunto com os estudantes, pais e lideranças, formulou um projeto político pedagógico de uma escola efetivamente educadora.

Heliópolis abriga uma escola inovadora.

Uma escola educadora não é um pleonasmo. Infelizmente, a grande maioria das escolas hoje não educa, no máximo dão aulas, o que não é suficiente – e às vezes é mesmo contrário – para garantir o pleno desenvolvimento humano. Mas, na Campos Salles não é assim. Aquela escola é de fato uma instituição educadora. Com 1120 estudantes, ali não há aulas. Nem salas de aula.

Em um ambiente que valoriza a convivência democrática, a estrutura é de amplos salões, com mesas onde grupos de estudantes trabalham juntos, com base em roteiros de pesquisas escolhidos por eles. Quando precisam de ajuda, podem recorrer aos três professores que estão no espaço no momento. Os professores trabalham em parceria, rompendo com a estrutura do isolamento da sala de aula que caracteriza as escolas que não educam. Hoje a escola estuda a organização necessária para se tornar uma república de estudantes, com as crianças participando da sua gestão.

Para chegar a esta configuração foi necessário percorrer um longo caminho, que teve como ponto de inflexão uma tragédia ocorrida em 1999. Naquele ano, uma aluna de 16 anos foi assassinada a poucos metros da escola, quando voltava para casa. No lugar de se fechar, render-se ao medo, a escola, em parceria com as lideranças locais, fez a primeira Caminhada pela Paz, ato de demonstração de força e união da comunidade que se tornaria, a partir de então, evento anual, reunindo milhares de pessoas, entre adultos, crianças e jovens. A Caminhada começa e termina na Campos Salles, depois de percorrer 4,5 km, o raio do Bairro-educador.

No final dos anos 90, Heliópolis era dominada pelo toque de recolher imposto pelo crime organizado e muitos acreditavam que o mais prudente seria se render a ordem de fechamento da escola no período noturno e todas as outras vezes em que o tráfico assim mandasse. A pressão era tanta que certa vez até o diretor ficou temeroso. Foi neste momento que um grupo de pré-adolescentes atuou como a liderança necessária, estimulando que a escola se mantivesse como um espaço da comunidade e não do crime.

A Caminhada pela Paz contribuiu para a consolidação da União de Núcleos, Associações de moradores de Heliópolis e São João Clímaco, a UNAS. E a UNAS contribuiu para a consolidação da proposta político pedagógica da Campos Salles e a conquista do Bairro-educador. O movimento organizado por mais espaços e tempos de educar, conquistou ali, no entorno da Campos Salles, da escola municipal de educação infantil Antonio Francisco Lisboa e da sede da UNAS, onde funciona a rádio comunitária, três centros de educação infantil, uma escola técnica com cursos escolhidos pela comunidade, um centro cultural com cinema e uma orquestra. Para escaparem da lógica burocrática e fragmentada da administração pública, a comunidade exigiu o controle sobre a gestão daquela estrutura e foi assim que Arlete Persoli tornou-se a responsável pelo Bairro-educador.

A morte de uma aluna foi o estopim para mudanças na escola e na comunidade.

Seu projeto foi construído e conquistado ao longo de 17 anos por uma equipe de educadores comprometidos, estudantes corajosos e uma comunidade organizada. Mas o pilar desta estrutura, o projeto político pedagógico da escola pública, está sempre em risco pela estrutura estatal, que centraliza os concursos para diretores e professores, dando aos concursados o direito de escolher a escola onde vão atuar e tirando da comunidade o direito de escolher suas equipes gestora e docente. Se por qualquer motivo Bras precisar deixar a Campos Salles, aquela comunidade deveria poder eleger para liderar a escola alguém comprometido com o projeto construído ao longo de tantos anos. A autonomia da escola precisa estar na pauta dos movimentos sociais pela ampliação dos tempos e espaços de educar, por bairros e cidades educadoras.