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Fundadora de centro de estudos pela dignidade defende Comissões da Verdade

Em passagem pelo Brasil, Evelin falou sobre direitos humanos e dignidade.

Precisamos de um bom combate, no qual as diferenças e singularidades sejam contempladas, reforçando os vínculos de convivência em prol do diálogo e da democracia. É o que defendeu a doutora em psicologia e medicina, Evelin Lindner, durante a palestra “Reflexões Democráticas: Direitos Humanos, Tolerância e Humilhação”, ocorrida na última terça-feira (22/5), em São Paulo.

Relembrando que a humanização continua sendo o grande desafio do tempo presente – numa citação ao pedagogo Paulo Freire –, a também fundadora da World Dignity University (Universidade Internacional pela Dignidade) é ativista desde 1996 na área dos direitos humanos.

A presidenta Dilma Roussef instalou recentemente uma Comissão Nacional da Verdade para apurar as violações dos direitos humanos, ocorridas entre 1946 e 1988. Criada pela Lei 12.528, essa Comissão terá o prazo de dois anos para concluir seus trabalhos.

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Para Evelin, um caso exemplar deste “bom combate” são as Comissões da Verdade, empenhadas em apurar os responsáveis por crimes cometidos no passado – como em genocídios, ou no caso de ditaduras –, e que atuam juridicamente em situações nas quais, segundo ela, “não há perdedores nem vencedores, e a sociedade ganha como um todo”.

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Humanização

“Humanizar”, de acordo com ela, significa não permanecer indiferente ou omisso diante da humilhação. Nesse sentido, o objetivo de seu trabalho é promover a dignidade. “Hoje em dia se discute os direitos humanos à luz do respeito entre as diversas culturas. Eu não coloco a questão nesses termos.”

Para ela, casos como os de mutilação genital feminina, praticados em comunidades da áfrica ou do oriente médio, não devem ser respeitados.

Evelin Lindner, fundadora da Universidade Internacional pela Dignidade

Para que a chamada “humanização” ocorra, explica, é preciso criar um senso de interdependência nas relações – isto é, tanto entre Estados, quanto entre grupos, e também com o meio ambiente imediato -, capaz de promover a universalização dos direitos civis que ainda não foram incorporados às políticas de Estado.

Tal artimanha requer uma mudança nas formas de participação política. Transformação que, segundo ela, encontra-se dificultada pela relação intrínseca dos políticos com o poder econômico. “As mudanças não podem mais partir apenas pelo modo eletivo. A atuação [política] pode ser de cima para baixo, mas também de baixo para cima. O sistema legal, no entanto, ainda não reconhece plenamente o trabalho feito pelas políticas de base”, argumenta.

A instituição que Evelin preside é formada por uma equipe multidisciplinar e tem por objetivo questionar a violência e quebrar o círculo de violação aos direitos fundamentais do homem, reconhecidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Uma alternativa de organização política na sociedade civil, aponta a doutora, seriam as Organizações Não Governamentais (ONGs), ainda que igualmente inseridas na lógica de mercado. “ONGs morrem quando começam a fazer a diferença porque logo as verbas são cortadas.”

A certa altura de sua palestra foi exibida a imagem de um astronauta em algum ponto do universo, com o planeta Terra ao fundo.

“Somos as primeiras gerações que convivem com essa imagem. A oportunidade que temos agora de sermos uma única família de seres humanos é única. Não há uma resposta total para qualquer pergunta. O que há é engajamento e colaboração”, lembra Evelin, frisando que suas palavras não são uma resposta, mas um convite.

Origens

Vinda de uma família de origem silesiana -região situada entre a Polônia, a República Checa e a Alemanha -, que viveu e ultrapassou os traumas das grandes guerras, Evelin viaja os quatro cantos do planeta a fim de construir redes capazes de romper o pacto com a violência. Nessa peregrinação, afirma ela, “busco rebeldes desconhecidos”. Sua causa é propositiva. “Trabalho a favor da dignidade.”