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Educação norteia comunidade de Heliópolis

Por Blog da Educação

“Transformar Heliópolis num bairro educador”. Eis a mola propulsora do Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis (Decreto Municipal nº 50740 de 16 de julho de 2009) – ou Pólo Educacional e Cultural, como é conhecido o Centro localmente ­–, construído em 2009, com base na crença de que, a partir da Educação, é possível organizar e gestar uma sociedade mais justa e igualitária, embasada na cultura da paz.

À frente do Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis, situado na região Sudeste de São Paulo, Arlete Persoli tem uma trajetória no bairro que data de 1995, quando fazia parte do grupo de formação da UNAS – União de Núcleos, Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco, entidade sem fins lucrativos da qual, hoje, é uma das diretoras. A gestora acredita que para qualificar a educação é preciso ir além dos muros da escola, transcendendo a ideia de que o aprendizado está restrito ao espaço formal e integrando a comunidade neste processo.

Em entrevista exclusiva ao Blog Educação, Persoli conta como surgiu o Centro de Convivência, fala sobre a importância de envolver a comunidade no processo de qualificação da educação e comenta os principais desafios do projeto.

O que é o Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis?
Arlete Persoli –
Conhecido como Pólo Educacional e Cultural, o Centro é um marco dentro da história da comunidade, no contexto de um movimento que pretende transformar Heliópolis em um “bairro educador”. Esse é um movimento importante, que elegeu a Educação como eixo norteador de todas as ações da comunidade.

E como se deu a escolha da Educação como base do movimento? Houve uma votação?
A. P. –
Não trabalhamos com votação, mas com a questão do consenso. Este movimento ganhou muita força com a relação da Escola Municipal de Ensino Fundamental – EMEF Presidente Campos Salles com a comunidade. A participação das lideranças da comunidade na EMEF ganhou uma dimensão tão grande, que as pessoas começaram a perceber que a Educação deveria ser o eixo norteador e qualificador também das outras lutas da comunidade por justiça social. O movimento é grande e preparou o lugar para o Pólo.

Na prática, qual é a composição do Pólo?
A.P. –
O Centro é um espaço que abriga seis escolas – três creches (CEIS indiretas, conveniadas com a prefeitura), uma EMEI, uma EMEF (Presidente Campos Salles) e uma ETEC (construída em parceria com o governo do Estado) – e um Centro Cultural. Agora, teremos um complexo esportivo, que está em fase de licitação, uma biblioteca e um prédio chamado Torre da Cidadania, que vai abrigar projetos da comunidade. Essas edificações estão distribuídas por 46 mil metros quadrados.

Os equipamentos são geridos pelo Pólo?
A.P. –
Cada equipamento tem a sua gestão própria e existe a gestão central, que não tem uma relação de chefia. Trata-se de uma articulação política, que segue os princípios que regem toda a comunidade educativa de Heliópolis; de uma articulação para que essa Educação realmente ganhe toda a comunidade.

O Pólo surgiu de uma ideia da comunidade?
A.P. –
No espaço que hoje abriga o Centro existia a EMEF Presidente Campos Salles, a EMEI Antônio Francisco Lisboa e uma praça utilizada por usuários de droga. Então, era fácil ver, às seis da manhã, alunos do próprio Campos Salles, e de outras escolas da região, se drogando na praça. Além disso, havia desova de corpos no local. Um dia, o diretor da EMEI, Braz Rodrigues Nogueira, encontrou com o Gilberto Dimenstein [jornalista] na comunidade e disse para ele: “puxa, Gilberto, você que tem uma boa relação com o prefeito poderia pedir para ele olhar para a nossa situação. Ele poderia fechar esta rua, que separa uma escola da outra, e colocar brinquedos na praça para que outras pessoas possam se apropriar do espaço, para que mães, pais e avós possam trazer suas crianças. Podemos fazer um outro arranjo aqui, um arranjo educacional e cultural na praça”. Passado algum tempo, o próprio prefeito Gilberto Kassab estava participando de uma atividade na região e perguntou ao Braz: “É você o diretor de escola que está propondo o fechamento da rua e uma outra ocupação para a praça?”. O Braz disse que sim. Na ocasião, estava presente o secretário da Educação, Alexandre Schneider, que teve toda uma sensibilidade com o assunto. Ele propôs não só o fechamento da rua como a construção de um centro educacional. Daí,  nasceu a ideia de um espaço de Educação que dialogasse com a comunidade. Mas o olhar do poder público só acontece porque existe um movimento muito engajado na comunidade.

Você cita a expressão “escola como centro de lideranças”? O que significa?
A.P. –
Falo do centro de lideranças na perspectiva de resgatar seu papel na sociedade. Quantas escolas você conhece que pega o grupo de alunos e caminha pela comunidade? Os equipamentos têm que ir à comunidade para que haja parceria. Precisamos conhecer as histórias da comunidade, os saberes e fazeres; trazer as pessoas com intencionalidade para que contem suas histórias. Qualificar a luta para a comunidade é ser corresponsável. É preciso fazer Educação com os sujeitos.

Isso exige uma grande mudança de paradigma, não?
A.P. –
Sim. Na prática, a Educação acontece no espaço da escola, restrita. Mas há uma mudança no mundo, de 30 anos para cá, que a escola não pode negar. O espaço no qual acontece o processo de Educação pode ser só na escola, ou na comunidade, tendo o local como cenário. Mas o espaço tem que ser educador.

Quais os maiores desafios do Centro?
A.P. –
Os maiores desafios são a articulação; trazer outros equipamentos para este viés; e tem a questão da gestão de corresponsabilidade entre comunidade e poder público. Mas o grande desafio, mesmo, é fazer com que a experiência positiva do Centro ajude a formular políticas públicas.

Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis
Tel: (11) 2083-2203
www.memoriasdeheliopolis.org.br

www.unas.org.br