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Trabalho em rede é alternativa para difundir o consumo consciente do álcool entre jovens

Como difundir e entender as limitações relacionadas ao consumo do álcool, para que seu uso não se torne nocivo, sobretudo entre jovens, é o objetivo de iniciativas de conscientização promovidas pela sociedade civil, em parceria com a iniciativa privada.  “O problema do consumo de bebidas alcoólicas por menores de idade é uma realidade que precisa ser enfrentada pelos diferentes agentes da sociedade”, ressalta João Castro Neves, presidente da Ambev (Companhia de Bebidas das Américas), salientando o caráter multidisciplinar do desafio.

A articulação entre o governo, na figura dos seus entes federados, a sociedade civil organizada, representada por suas organizações e comunidades, e a presença do setor privado, no caso, tanto a indústria quanto o comércio, é um dos modelos de coalizão em prol do consumo responsável.

“Segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde, órgão internacional que trata e discute o assunto], o setor econômico tem um papel fundamental a cumprir na solução do problema”, lembra Milton Seligman, vice-presidente de relações corporativas da Ambev, durante a realização do II Seminário de Prevenção ao Uso do Álcool. O evento reuniu especialistas e acadêmicos, além de 18 organizações não-governamentais vinculadas ao projeto “Jovens de Responsa”, voltado à prevenção do uso de bebidas alcoólicas por jovens menores de 18 anos.

Rede

A formação de uma rede organizada em torno da conscientização requer o alinhamento dos envolvidos nas diretrizes e objetivos almejados. Norteados pelas premissas da OMS, os pilares do consumo responsável são alertar sobre os riscos de beber e dirigir e estimular o cumprimento da lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores.

“Para alcançar uma efetiva atenção seja do jovem ou da família, precisamos de uma ação política integral, que envolva os sujeitos em diferentes instâncias. A solução é adotarmos programas simultâneos, enlaçados, como o Saúde da Família, a Cidade Educadora e Educação Integral”, defende a doutora em serviço social, Maria do Carmo Brant de Carvalho. Ela argumenta que, além de multidisciplinar, é importante ter uma atuação transdisciplinar e multissetorial, capaz de uma comunicar e articular para a incidência político-social desejada.

Solidariedade

A psicóloga e educadora Rosely Sayão toca num ponto importante: “Sem solidariedade, a família não forma uma rede com a escola. Elas estão numa luta acirrada. A parceria escola e família no Brasil é um fantasma que nunca existiu”, avalia.

Ao mesmo tempo, ela também nota que “nós, adultos, conspiramos para que a juventude nunca amadureça. Meu cabelo branco é um ato político: alguém nesse país precisa assumir que envelhece”, afirma. Ela defende que falta aos adultos de hoje assumirem o seu lugar, para que os jovens possam de fato amadurecer e constituir sua autonomia.

Acrescente-se a esse contexto uma “moralização da saúde”, diz a educadora, pelo qual se estipulam quais devem ser os cuidados consigo, justificados pelos discursos e avanços da ciência. Segundo Roseli, “liberdade pressupõe escolhas. Qual é a autonomia que o jovem tem hoje, se existem sempre várias instituições e meios de comunicação dizendo até quais são as maneiras de se divertir numa festa, por exemplo?”

A política de proibição às drogas, acrescenta ela, só restringe mais o desenvolvimento reflexivo do jovem quanto ao assunto. “Neste contexto, resta a ele a transgressão da regra, algo por sinal característico desta fase da vida. Não resta a ele o conhecimento, a reflexão”, conclui.

Comunicação

Para o jornalista Gilberto Dimenstein, a comunicação tem um importante papel a cumprir ao contribuir para a transformação das mentalidades. No caso do consumo consciente, ele também defende uma coalizão entre os diferentes agentes comunitários. “É necessário instrumentalizar o jovem para que ele se torne um bom comunicador, fazendo um bom uso da palavra, agindo diretamente na transformação das mentalidades”, afirmou.