Arquivo

Carlina: “Foi a comunidade que me incentivou a ser conselheira tutelar”

Conselheira Tutelar há cinco anos, Carlina da Silva sonha com o dia em que crianças não sejam mais vítimas de abuso e exploração sexual.

Por Yuri Kiddo
Publicado originalmente na Rede Pró-Menino Fundação Telefônica

Nascida em 1969 no interior de Alagoas, Carlina Henrique da Silva se mudou com os pais para São Paulo quando tinha apenas dois anos. Na metrópole, poderia ter se saído uma exímia costureira, se tivesse decidido seguir os passos da mãe. Mas, foi seu pai, Gerôncio Henrique Neto, quem trouxe inspiração para sua escolha profissional.

Em 2001, Carlina morava com a família no Jardim Edite, região do Brooklin, quando enfrentou uma ordem de desapropriação da região. “A prefeitura estava retirando os moradores sem direito a nada”, afirma. Diante deste cenário, seu pai fundou a associação de moradores do bairro e foi por meio dela que Carlina descobriu sua verdadeira vocação. “Eu ficava muito com as crianças e adolescentes, e ao mesmo tempo lutando pela proteção e garantia de seus direitos. Foi a comunidade que me incentivou a ser conselheira tutelar”, função que exerce há cinco anos, sempre na região de Pinheiros.

Leia também outros perfis:
A educadora que reinventou uma escola
Felipe Milanez: o jornalismo em defesa das florestas e dos direitos indígenas

Depois de muito trabalho, chegou o resultado que poucos acreditavam ser possível por se tratar de um lugar onde o terreno é muito valorizado. “A associação reuniu e organizou os moradores e, no final de 2009, recebemos o direito da reurbanização da comunidade no mesmo local”, conta orgulhosa. Hoje, Carlina ainda mora com os pais e uma filha, mas agora no Jardim Apurá. Por meio dos trabalhos da associação de moradores, da qual seu pai ainda é o presidente, eles acompanham a construção dos edifícios conquistados na militância – previstos para serem entregues ainda em 2013.
De segunda a sexta, Carlina cruza a cidade para atuar como conselheira na região de Pinheiros. Entre suas tarefas diárias está o atendimento a pais, responsáveis, crianças e adolescentes diante do descumprimento de proteção previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Também é parte de suas tarefas fazer valer as decisões tomadas no conselho tutelar e para isso, conta com o apoio de recursos públicos de diversas áreas, que vão desde educação e serviço social à saúde, trabalho e segurança. Caso alguma de suas deliberações não seja atendida, é parte de seus atributos recorrer a uma autoridade judiciária e vê-la cumprida.

Trabalho infantil

A região em que Carlina atua é de alto poder aquisitivo e, por isso, um atrativo para crianças e adolescentes de bairros periféricos irem e voltarem diariamente para pedir dinheiro ou fazer malabares no semáforo. Famosa pela quantidade de bares, a área também é cenário de crianças e jovens vendedores ambulantes que até de madruga tentam levar um trocado para casa.

“Juntos nós podemos auxiliar as famílias que têm os filhos em situação de trabalho infantil e aquelas que utilizam as crianças na mendicância”, completa a conselheira. O Conselho Tutelar de Pinheiros tem uma boa parceria com a ONG Presença Social nas Ruas (PSR), que realiza o trabalho de abordagem nas ruas e encaminha as situações para que sejam tomadas as medidas necessárias.

Desafios

Em sua terceira eleição no Conselho Tutelar de Pinheiros, Carlina discorre que, dentre as dificuldades de se trabalhar no órgão, o maior desafio é a falta de política pública voltada para crianças e adolescentes. “Quando requisitamos serviços públicos nas diversas áreas, a falta de equipamento e a demora no atendimento para as famílias acaba inviabilizando o nosso trabalho”.

A conselheira compartilha da opinião de outros especialistas e funcionários das redes de atendimento em relação à maior efetivação dos direitos de meninos e meninas. “As ações que poderiam contribuir seriam a articulação e integração das instâncias públicas, aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos da criança e do adolescente”.

Por isso, Carlina é uma das principais articuladoras com parceiros das redes de atendimento do conselho tutelar. “Não adianta somente encaminhar os casos para os conselhos tutelares ou centros de referência de assistência social (CRAS) das regiões de moradias das famílias. Precisamos formar uma rede articulada de garantia de direitos, na qual devemos incluir todos os serviços”, explica.
Além disso, ela acredita que é necessária a inclusão de crianças em escolas e centros de educação de período integral. No período do contra turno escolar, Carlina defende a construção de mais creches e centros de cidadania e atividades sociais, para que os pais possam trabalhar e garantir o sustento da família sem ter que deixar as crianças e adolescentes expostos a situações de risco.

Sonhos

Incisiva, emocionada e confiante, Carlina é um exemplo de alguém que dedica a sua vida na luta pela proteção e garantia de direitos básicos que crianças e adolescentes já deveriam ter naturalmente. Sem demagogia, ela conta alguns de seus sonhos. “Gosto muito de exercer a função de conselheira tutelar, mas gostaria de não ser preciso ter este serviço. Sonho que os governos exerçam o seu papel e façam, de fato, políticas públicas voltadas para as pessoas, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos. Também sonho com uma sociedade em que os adultos percebam que as nossas crianças precisam de carinho, afeto e amor, não de pancadas”. Agregada a isso, ela faz um alerta sobre consumismo. “Crianças e adolescentes precisam também da atenção de seus responsáveis, e não somente de brinquedos ou outras coisas que são dadas para suprir estas faltas”.

Um sonho mais alto ainda, segundo Carlina, “é o dia em que meninos e meninas não sejam mais vítimas de abuso e exploração sexual, pois é um dos trabalhos que faço que mais me marca”.

Para planos futuros, a conselheira quer escrever um livro sobre os anos de conselho. “São tantas situações dolorosas que passamos que às vezes fico sem saber qual atitude tomar. É difícil como ser humano separar o profissional do seu emocional em alguns atendimentos”, conclui a conselheira.