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Ao lado da USP, mães do Jd. São Remo sofrem com falta de creche

Muitas mães têm abandonado o trabalho para cuidar dos filhos.

Um pequeno portão e enormes muros separam a Universidade de São Paulo (USP), a maior instituição de ensino superior pública do Brasil, do Jardim São Remo.  O bairro, com cerca de 10 mil habitantes, tem sua população composta em grande parte por funcionários da USP. Mas desde o ano passado, com o fechamento do Centro de Educação Infantil Projeto Girassol, organização conveniada com a prefeitura, o abismo que divide a academia da comunidade da São Remo aumentou.

Maria*, 21, é moradora do local há quatro anos. Trabalhou como encarregada de limpeza na USP, mas teve que pedir demissão para cuidar da filha de um ano, que estava sem creche – recentemente conseguiu uma vaga numa escola longe de sua casa.  “É muito ruim isso. Muitas mães têm largado o serviço para cuidar dos filhos. A creche é uma necessidade urgente por aqui”, disse Maria.

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Um levantamento feito pelo Movimento Luta Popular, que já cobriu um quarto das casas do bairro, encontrou 80 crianças sem acesso à educação – a estimativa do grupo é que seriam mais de 300.

Para resolver a situação, os moradores fazem o que podem: deixam os filhos com parentes ou com “cuidadoras”, geralmente aposentadas ou desempregadas, que ficam com até 20 crianças em moradias “apertadas” e cobram um valor baixo. “É uma condição muito precária, não tem espaço, segurança, comida boa e menos ainda uma proposta educativa e pedagógica. Mas é assim que o povo se vira”, relatou Helena Silvestre, que vive na região e integra o Movimento Luta Popular.

Helena ressalta que a construção de uma creche é a principal demanda dos moradores da comunidade e figurou como pauta prioritária no orçamento participativo da região, que culminou no Plano Diretor Regional de 2007. O projeto nunca saiu do papel sob alegação de que falta terreno na região para construir a creche.

Alternativa

No entanto, desde o ano passado, a Associação dos Moradores do Bairro Jardim São Remo tem entrado em contato com a reitoria da USP para reivindicar um terreno desocupado dentro da comunidade que poderia receber a creche. O edifício, que pertence à universidade, já foi usado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

A Reitoria não ofereceu qualquer resposta aos apelos da comunidade, mas o Plano Diretor da Universidade para 2013 apresenta um projeto de expansão e cita essa área, além de campos de futebol e moradias populares, como passíveis de incorporação.

“Temos a esperança que a USP se sensibilize com a nossa questão. Que olhe e vele por sua excelência educacional e sua missão social”, disse Helena, que vê a situação como um retrato do Brasil. “O mais elementar para uma criança pobre não é acessível há poucos metros do maior centro de pesquisa, ensino e extensão do Brasil e da América do Sul.”

Procurada pelo Portal Aprendiz, a USP afirmou que desconhece a demanda da comunidade e que a área do terreno será usada para a construção de uma unidade de saúde pelo Hospital Universitário (HU) em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde.

*O nome foi trocado a pedido da fonte.

*Atualizado no dia 24/5 às 15h35.