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Yaacov Hecht: “As crianças podem aprender em qualquer lugar da cidade”

Estudantes da Escola Democrática de Hadera participem de grupo de discussão.

“As crianças podem aprender em qualquer lugar da cidade”, resumiu Yaacov Hecht, educador israelense e idealizador da primeira escola do mundo a se declarar democrática. Nascido em 1958 no povoado de Hadera, onde vive até hoje, Hecht partiu de sua experiência como estudante para idealizar uma escola que respeitasse a autonomia e os sonhos das crianças.

A experiência piloto que teve início em 1987 é hoje uma das referências mundiais em educação, discutindo, inclusive que os estudantes devem aprender com seus pares e na comunidade onde vivem, transformando os professores em mediadores do conhecimento.

Verdadeiro entusiasta de uma nova educação, Hecht desenvolveu outras 25 escolas em Israel e ajudou a criar as Conferências Internacionais de Educação Democrática e o Instituto pela Educação Democrática, que busca influenciar as políticas públicas de educação do país.

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Portal Aprendiz: Como vocês em Israel trabalham a questão da cidade como ambiente de aprendizado?

Yaacov Hecht: Nós começamos com a ideia de uma educação democrática em 1987, quando fundamos a “Escola Democrática”, que tinha como principal preocupação encontrar a singularidade de cada um e buscar um caminho educativo que respondesse a isso. Queríamos entender onde cada estudante é mais forte e investir nisso. Depois, motivamos o aluno a ver as outras áreas onde seus colegas são mais fortes, incentivando-os a trocar conhecimento. A ideia é que assim, todos se tornem professores e estudantes.

Também tínhamos a ideia de percorrer a comunidade para que a educação democrática refletisse o caráter de um país democrático. Então organizamos um parlamento interno, para decidir as questões do colégio e uma espécie de corte judicial, composta por estudantes e professores, para resolver os impasses e confrontos que aconteciam no cotidiano.

Basicamente, o que fizemos foi criar um ambiente parecido ao que existe fora da escola. Ou seja, criamos uma escola que dialoga com a sociedade. Nós a chamamos de escola democrática porque ela nos lembra que nós estamos vivendo em uma sociedade. Nós acreditamos que a educação tradicional foi fundada em sociedades autoritárias, então se mudamos a realidade política, social e cultural, é necessário que a educação mude junto, que a escola prepare as crianças e jovens para viver com autonomia.

Portal Aprendiz: Como vocês conseguiram dar conta dessa imensa gama de características e sonhos de cada criança?

Yaacov: Essa questão nos fez olhar para a comunidade. Se temos mil alunos na escola, é complicado encontrar professores, mestres, especialistas, laboratórios que dêem conta de cada questão do estudante. Foi assim que decidimos pelo mais simples: usar a cidade e todos os seus recursos para criar uma grande escola.

As crianças podem aprender em qualquer lugar da cidade, no espaço público ou privado e chamamos isso de a “arte da colaboração”. Na aula tradicional, é muito simples: você tem um professor que te diz o que fazer e há alguém acima dele o que fazer e por aí vai. É o que chamamos de paradigma da pirâmide. Em uma pirâmide, vocês faz exatamente o que a pessoa acima de você manda você fazer e o objetivo disso é que as pessoas compitam para chegar até o topo.

Como resposta a essa estrutura, criamos a plataforma de rede. Todo estudante tem que encontrar sua vocação e dentro disso ensinar o que sabe para o próximo. Eu te dou um exemplo: Numa sala há cinco crianças boas em matemática, cinco que são boas em inglês, cinco que são muito boas em esportes. O professor então chama os estudantes para serem professores assistentes de sua matéria e a aula, ao invés de ter um professor, tem seis. Na escola piramidal, o jovem tem notas, o que faz com que o seu colega seja também o seu competidor. O que fizemos foi fazer com que cada sala tivesse uma nota, que é a média do total dos alunos da sala. Transformamos cada grupo de estudantes num time de futebol, onde cada um tem papel diferente mas tem o mesmo objetivo. Essa é a ideia da arte da colaboração.

O professor também tem um perfil bastante solitário, cada um na sua sala, então fizemos times de professores que trabalham juntos. Na cidade, as escolas competiam umas com as outras. Então dissemos: “Ok, vamos criamos uma rede de colaboração entre as escolas, onde cada uma ajuda a outra onde há uma deficiência, um problema”. Mas na cidade não há apenas escolas, há indústrias, organizações. Ligamos todas essas instituições para colaborar com a educação. Por fim, chegamos ao território de Israel, onde cada cidade apenas olhava para si e conectamos essa cidade para que todas olhassem uma para as outras, de forma que o que dá certo numa cidade pode inspirar todo o país.

Portal Aprendiz: Ao mudar o sistema de educação, nos deparamos com o desafio de ensinar os professores a ensinarem deste novo jeito. Como vocês fizeram isso? Como mudar essa mentalidade?

Yaacov: Primeiramente, nós não dizemos aos professores o que fazer. Essa é a premissa básica do sistema educativo: a de que o professor não sabe o que fazer então eles dizem ao professor o que fazer. Precisamos quebrar esse sistema, esse ciclo. Começamos a dizer aos docentes: “o que você quer fazer?” e isso os chocou, pois eles nunca haviam pensado. Eles apenas iam para a escola fazer o que lhes era dito.

Tentamos ajudar a construir os processos que garantissem que os educadores fizessem o que queriam. E isso passa por mostrar que eles são pessoas interessantes, que vêm de um lugar, que fazem coisas depois das aulas, que constroem famílias, que tem objetivos de vida. Assim, os professores começaram a se conhecer e se viram num time pronto para trabalhar na mudança do sistema da classe. Então não construímos algo de fora e sim de dentro, ao dizer: “nós confiamos em você totalmente. o que você quer ensinar?”

Portal Aprendiz: Outra coisa que aparece quando se fala em educação democrática é o processo de avaliação. Como se avalia o que um professor fez ou o que um aluno aprendeu?

Yaacov: Como você avalia o que você está fazendo?

Portal Aprendiz:  Pensaria comigo, te perguntaria o que você acha…[risos]

Yaacov: Eu acho que a avaliação é algo a ser pensando em profundidade, mas começa consigo mesmo. Preciso ter as ferramentas para me avaliar e acho que esse processo não está conectado com a escola. A ideia de que alguém fora de você, de forma técnica, pode avaliar o que você está fazendo não diz respeito ao real. Imagine alguns fantasmas, rondando nossa entrevista e dizendo “Ok, essa foi uma resposta nota 7”. Não é nada.

O mais importante é que você, dentro de si, acesse algo que possa avaliar sua situação. Nós dizemos, na educação democrática, que o jeito menos efetivo de aprender é ouvir palestra e a maneira mais efetiva é pesquisando e isso envolve auto-avaliação. Por exemplo, digamos que cada um faça um projeto, ou faça um exame, ou uma prova, porque não trocarmos entre nós, os produtos desse aprendizado, para que possamos pensar sobre os resultados. Existem muitas formas de pensar avaliação mas raramente as fazemos.

Portal Aprendiz: Você poderia me explicar a sua crítica aos testes padronizados que são aplicados em diversos países, como Brasil, Israel, Suécia etc.?

Yaacov: Eu não quero que todos os sistemas educacionais do mundo sejam os mesmos! Não faz sentido que Brasil ensine o que está em Israel, que por sua vez, ensina a mesma coisa que nos EUA. A ideia é que quando você aplica um teste você não confere apenas o que ele sabem, mas também o que eles vão aprender. Eu acho que somos diferentes e essa é a coisa mais bonita que há no mundo, por isso que é importante para mim, enquanto israelense, que vocês mantenham sua cultura. É muito importante para mim que sua cultura seja diferente, que eu chegue aqui e você me ensine algo que não há em meu país. Esse para mim é o perigo destes testes: que se aprenda as mesmas coisas, que se ensine as mesmas coisas.

Portal Aprendiz: Você sempre comenta que pessoas lhe perguntam o que uma criança deveria aprender. O que você responde?

Yaacov: Eu sempre respondo que uma criança deve aprender a se sentir capaz, a sentir que alcançou seus objetivos. Ao passo que isso é garantido, essa criança poderá aprender o que quiser; se ela sentir que consegue, ela sempre abraçará o conhecimento. Se não, ela permanecerá se entendendo como um fracasso e dificilmente reencontrará a vontade de aprender.