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Iniciativa na África do Sul une pessoas e instituições em prol das crianças

Por Jéssica Moreira

Existem hoje mais de 14 milhões de crianças da África Subsaariana abandonadas após a morte de pais contaminados pelo vírus da AIDS. Só na África do Sul, mais de um milhão são órfãs. Essa realidade, aliada ao contexto socioeconômico do país – marcado por desigualdade, exclusão social e falta de moradia – agrava ainda mais a situação do abandono infantil, exigindo um esforço conjunto dos diversos setores da sociedade para resolver a questão.

Com o intuito de conectar essas organizações e criar iniciativas intersetoriais, em 2006, a Reos Partners, uma organização que apoia ações colaborativas em todo o mundo, criou o Laboratório de Inovações para Órfãos e Crianças Vulneráveis (LINC) da África do Sul. Ao todo, a organização reúne hoje mais de cinquenta líderes sul-africanos, entre representantes do governo, líderes de organizações da sociedade civil, empresários, líderes religiosos e comunitários.

Em 2013 o projeto completa sete anos de existência e segue em atividade. Para a facilitadora de diálogos da Reos Partners, Mille Bojer, a preocupação em envolver os participantes e mapear iniciativas já existentes – antes mesmo da execução do projeto – colaborou para a manutenção da iniciativa ao longo de tantos anos.

Estudo da Unesco divulgado nesta semana aponta que a região da África Subsaariana possui 46% da carência de professores em relação aos outros países do mundo. Até 2030, será necessário formar mais de 2,1 milhão desses profissionais para atender a demanda populacional.

“Ideias são testadas com a participação de todos os envolvidos, criando um sentimento de pertencimento e envolvimento, formando parcerias com todas as pessoas envolvidas pela ideia”, aponta Mille, que acredita que o grande objetivo seja associar planejamento e implementação à criação de novos espaços de aprendizagem.

É preciso enxergar além da ponta do iceberg

Uma das estratégias adotadas pela organização é a elaboração de um diagnóstico. O objetivo da metodologia é compreender o contexto no qual o problema está inserido, para além das causas apresentadas por dados ou informações divulgadas pela mídia. “As matérias de jornais e eventos são a ponta do ‘iceberg’, mas devemos mapear o que está abaixo dessa superfície, entendendo quais são as tendências e padrões que norteiam as estruturas sociais e quais são as ideologias de um grupo.”

Desde sua criação, a rede criada na África do Sul vem colaborando de forma efetiva na busca por soluções para o abandono na primeira infância. De dois em dois anos, são escolhidos líderes que têm como tarefa discutir as principais políticas públicas e capacitar aqueles que atuam nos projetos diretamente ligados às crianças.

Um dos maiores ganhos em reunir um grupo com tamanha diversidade é poder sistematizar informações de todo o país, apoiando o diagnóstico de problemas e a busca por soluções. Outro resultado positivo é o estreitamento de contatos entre lideranças da sociedade civil e representantes do governo.

Inovação social x Inovação tecnológica

Para Bojer, as inovações sociais superam as inovações tecnológicas. Enquanto estas podem ocorrer em qualquer lugar, independente do contexto que envolve as comunidades, as primeiras dependem de estímulos, interação e formação. Exemplo disso são os antivirais distribuídos por diversas organizações da África do Sul. “A criação do medicamento é uma inovação técnica, que envolve especialistas. Mas fazer com que as pessoas que moram em uma aldeia tenham acesso a informações e utilizem os remédios de forma adequada, isso requer uma inovação social”, apontou Bojer.

A facilitadora de diálogos esteve nesta quarta-feira (2/10) no 3º Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância. Organizado pelo Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), em parceria com o Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard, o evento teve como foco as ações e programas desenvolvidos nas áreas de educação, saúde e assistência social para a primeira infância. Na ocasião, foi lançada também a publicação “Primeiríssima Infância – da gestação aos 3 anos – Percepções e práticas da sociedade brasileira sobre a fase inicial da vida”, desenvolvida pela FMCSV e pelo Ibope