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Ações comunitárias preenchem vazio deixado nas metrópoles

Debaixo da ponte, num escadão ou em terrenos baldios. O progresso e o desenvolvimento urbano não raras vezes deixam vazios. Para discutir como práticas informais de urbanismo e ações cotidianas e coletivas têm transformado esses espaços, o debate “Usos e desusos da cidade” reuniu na noite de  quinta-feira, em São Paulo, como parte da X Bienal Internacional de Arquitetura, no Sesc Pompeia, os urbanistas Marcos Rosa, autor do livro Handmade Urbanism; Kyong Park, da Universidade da Califórnia; e Carlos Teixeira, do Vazio S/A de Belo Horizonte.

Kit Horta.

“Quando tudo colapsa, as pessoas têm que tomar o cuidado da cidade nas próprias mãos, como aconteceu no pós-guerra europeu. Não há como esperar o Estado”, comentou Kyong ao falar sobre Detroit, nos Estados Unidos. A cidade, que recentemente declarou falência, é a primeira, desde a Roma Antiga, a retroceder da marca de um milhão de habitantes. Conhecida como a “Capital do Automóvel”, Detroit entrou em colapso com a saída das indústrias dos EUA na década de 50 e perdeu 64% de sua população, com 700 mil habitantes nos dias de hoje.

O êxodo urbano redundou no aparecimento de enormes áreas vazias, que geraram bairros fantasmas, além de degradação de espaços públicos e privados. No entanto, nos últimos anos, diversos coletivos de moradores da cidade começaram a retomar e a ressignificar o vazio: hortas comunitárias se espalharam por Detroit, inclusive no centro da cidade, parques novos foram criados, pequenos negócios começaram a aproximar a comunidade, coletivos ligados à mobilidade urbana iniciaram projetos e ações, artistas criaram pontos de ônibus onde antes não havia, ou seja, diante de um quadro de abandono, os habitantes tomaram a cidade para si.

Brasil

A experiência da cidade americana dialoga com o conceito de urbanismo feito à mão, defendido pelo urbanista Marcos Rosa. Após conhecer iniciativas de intervenção cidadã em Mumbai, Istambul, Rio de Janeiro, São Paulo, Cidade do México e Cidade do Cabo, ele escreveu o livro “Handmade Urbanism” e passou a reproduzir experiências positivas, distribuindo kits simples que permitem que qualquer pessoa transforme espaços vazios em praças, playgrounds e oficinas de pipas, ou intervenha com lambe-lambes e hortas.

“Há o conceito de cidade informal, que diz respeito aos assentamentos precários. 70% das cidades são formadas informalmente. Temos puxadinhos, gatos, gambiarras, improvisos complexos, diversos, singulares e extremamente sofisticados. Pessoas transformam seu ambiente usando recursos locais e habilidades que possuem para dar respostas rapidamente”, analisa Rosa.

Para ele, os planejamentos urbanos devem sempre partir de baixo para cima. “A experiência do fazer é essencial. Porque não tomar responsabilidade pela cidade?”, conclui.