Arquivo

Ocupação da rua é crucial para promover mudanças sociais e culturais

Siga o Aprendiz no Facebook e no Twitter.

Pintar faixas de pedestre quando elas não existem, construir uma praça onde havia um estacionamento, criar um manual de construção para aumentar a qualidade das moradias em ambientes vulneráveis.

Essas são algumas ações apresentadas pelos coletivos ativistas Partizaning, da Rússia, Supersudaca, da América Latina, e CRIT (Collective Research Initiatives Trust), da Índia, em um debate da X Bienal de Arquitetura, realizado no último sábado (9/11), no Sesc Pompeia, em São Paulo.

O que esses coletivos têm em comum? O pressuposto de que o espaço público é um ambiente transformador da sociedade – para eles, apropriar-se desses locais é “crucial” para impulsionar mudanças sociais e culturais.

Leia mais
Ações comunitárias preenchem vazio deixado nas metrópoles
X Bienal de Arquitetura propõe reflexão sobre os espaços urbanos

Partizaning

“A cidade é o nosso cenário”, explica o russo Meike, membro do Partizaning, coletivo que ocupa os mais diversos ambientes públicos de Moscou – desde o metrô até as caixas de correio – em um trabalho que conecta urbanismo, arte de rua, humor e ativismo.

Membros do Partizaning divulgam mapa do metrô de Moscou "do it yourserf" (faça você mesmo).

“Nosso papel é colaborar para a convivência entre cidadãos. No dia a dia vemos pessoas caminhando sérias. Na rua, poucas estão sorrindo. Brincar fomenta uma criatividade espontânea”, observa Shria, indiana que também participa do coletivo.

No último fim de semana, o Partizaning ajudou a organizar o evento “A Cidade como Playground – DIY Olympics (Olimpíadas Faça Você Mesmo)”, que foi encerrado com uma corrida no Elevado Costa e Silva, onde os ativistas russos colocaram novas placas para ciclistas e pedestres. “Faz 40 anos que o Minhocão fecha à noite e aos domingos, mas não havia nenhuma sinalização para pedestres e ciclistas. Criamos esses símbolos”, afirma Meike.

O Partizaning também criou um jogo de tabuleiro online que estimula reflexão sobre os espaços públicos existentes em uma cidade. Clique aqui para jogar.

Na verdade, as brincadeiras citadas por Shria são intervenções lúdicas que estimulam o engajamento dos moscovitas na busca por uma cidade mais humana. Por exemplo: em um cruzamento onde não havia faixas de pedestres, mas a circulação de pessoas era intensa, o Partizaning pintou faixas no asfalto e facilitou a vida de muita gente. Também construiu bancos públicos em espaços nos quais não havia onde sentar.

Já no metrô, o coletivo distribuiu um mapa com as distâncias reais entre as estações, mostrou os caminhos mais curtos e estimulou o uso de bicicletas para que os cidadãos se desloquem entre elas. Tudo isso sem autorização do poder público.

Entre as ações favoritas do coletivo estão as Caixas de Correio Amarelas. Para envolver as pessoas em um diálogo sobre a cidade, o Partizaning espalhou essas caixas em um bairro de Moscou junto a pergunta: “O que você gostaria de mudar na sua comunidade?”. Havia uma indicação de que o coletivo se esforçaria para atender as sugestões, mas que, se os cidadãos já conheciam os problemas, poderiam começar a resolvê-los por conta própria. “É interessante notar que criamos o nosso próprio sistema na cidade, ao promover um espaço para outras intervenções”, comemora Meike.

CRIT

Formado em 2003, o CRIT é um coletivo que atua na cidade de Mumbai, na Índia, e está envolvido em intervenções em espaços de urbanismo emergente, como áreas de habitação e periferias. “Procuramos formas de trabalhar com várias comunidades através da arte e da arquitetura”, informa Yogita Lokhande. “Hoje, o que vemos é uma cidade ofuscada, que não tem um limite certo – é tudo difícil de ver, há ambulantes em frente das paredes, há lojas na frente de lojas, carros na frente de pessoas, armazéns na frente de mercados. Não existe um contorno definido”, avalia a arquiteta indiana.

Coletivo faz pesquisas nas comunidades vulneráveis de Mumbai.

Recentemente, o CRIT desenvolveu o projeto Slum Settlement Studies, que estuda os aspectos geográficos das comunidades vulneráveis de Mumbai e oferece um manual para elas construírem suas moradias com mais qualidade. “Estamos resgatando formas diferentes de fazer essa prática”, afirma Yogita. Além desse manual, o coletivo também produziu um guia que enumera intervenções que uma comunidade pode fazer para recuperar um espaço público que está sofrendo especulação imobiliária.

Supersudaca

Um coletivo de arquitetos que não querem trabalhar para construir casas de ricos à beira-mar. É assim que se define o Supersudaca, grupo de arquitetos latino-americanos que produz intervenções no espaço público ao redor do mundo. “A arquitetura ou é teoria, ou é um ato político, ou serve para melhorar a vida do público? Para nós a arquitetura é tudo isso, por isso somos o Supersudaca”, relata o chileno Juan Pablo.

O coletivo existe há 12 anos e já concretizou mais de 160 projetos. “Todos incompletos”, entretanto, segundo os membros do coletivo. “O Supersudaca não encerra seus processos. Diferente da abordagem individual do arquiteto, o coletivo adota uma forma aberta, múltipla e flexível para desenvolver seus trabalhos”, conta o uruguaio Estevão.

Desse modo, projetos como a Habitação Social Experimental em Lima, no Peru, ficarão inacabados e podem adquirir uma nova trajetória. “As obras abertas estão sujeitas à reinterpretações, seja teórica, acadêmica ou de construção”, afirma Juan Pablo. “Para nós, quando uma obra se mostra incompleta, ela está pronta.”

Nem tudo são flores

Em São Paulo, o Supersudaca foi convidado a criar uma praça em um terreno vago em pleno Bixiga. Em parceria com o Teatro Oficina e com o estúdio Vazio S/A, de Belo Horizonte, a ideia era tornar o local público por um final de semana e fazia parte de um projeto de “reexistência” do espaço.

Para Juan Pablo, o terreno, situado no entorno do Teatro Oficina, possui uma interação política complexa e é disputado por diversos atores urbanos. “A nossa proposta era fazer um parque no último espaço vazio do centro da cidade, mas como mantê-lo sem envolver o bairro?”, questiona. “Optamos por criar a Praça da Paixão e deixá-la pública por um fim de semana. Depois, outras opções apareceriam naturalmente”, afirma o argentino Max.

Desenho de projeto da Praça da Paixão.

A intervenção foi aberta na sexta-feira (8/11) e contou com uma jam session da banda Bixiga 70. Segundo o relato dos participantes, porém, aconteceram alguns inconvenientes: instrumentos musicais foram furtados. O grupo decidiu então cancelar a abertura da Praça da Paixão.

“Às vezes temos as melhores intenções, mas as coisas não funcionam”, lamenta Juan Pablo. “Porém, é interessante perguntar o que é sucesso na arquitetura. Quantos metros quadrados você constrói, quantos prêmios você ganha, quantos escritórios você tem pelo mundo? Nesse sentido, a falha é muito interessante, pois indica que ao menos estamos explorando algumas possibilidades.”

Siga o Aprendiz no Facebook e no Twitter para receber notícias atualizadas e exclusivas sobre educação.