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Amarildo é eleito patrono de turma de Arquitetura da UFF

Elizabeth Silva, viúva de Amarildo, segura a foto do pedreiro em frente à UPP onde foi visto pela última vez.

Estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) escolheram o ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, desaparecido em 14 de julho deste ano após ser detido por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, onde nasceu e vivia, como patrono de formatura de sua turma.

Após o seu desaparecimento, cercado de provas concretas de violência policial, ocultação de cadáver e tortura por parte das forças policias, Amarildo tornou-se símbolo dos  35 mil desaparecidos dos últimos seis anos no estado do Rio de Janeiro e de tantos outros no Brasil. Seu caso, e a consequente mobilização, gerou uma enorme campanha de solidariedade nacional e internacional, que perguntava: onde está Amarildo?

Mas o caso também levantou diversas outras perguntas que os estudantes de arquitetura e urbanismo da universidade carioca não puderam deixar de fazer. O que significa esse pedreiro, morador da Rocinha para nós, futuros arquitetos? O que ele diz sobre a divisão do trabalho, sobre executar o que é planejado no computador com as mãos? Sobre a remoção de milhares de família para os megaeventos? Para as paisagens de favelas apagadas pela especulação? Sobre a condição de vida na Rocinha? Sobre a cidade? Sobre nós?

Confira abaixo o texto da turma de formandos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFF e entenda alguns dos questionamentos e respostas que eles encontraram sobre seu mundo e sobre o papel que exercerão nele.

“O patrono desta turma foi auxiliar de pedreiro. Dedicava-se a executar, com mente, mãos e músculos, o que nós, arquitetos, planejávamos em nossas telas de computador. Seu nome era Amarildo.

Pensar no pedreiro Amarildo é pensar no trabalho alienante (no escritório e no canteiro), na divisão social do trabalho, na mão-de-obra executora, afastada do conhecimento… Em uma realidade que reserva a nós, arquitetos, um diploma em mãos, e a ele sacos de cimento nos ombros. Mas é também pensar na potência da autoconstrução, do conhecimento encarnado de quem todos os dias experimenta, improvisa, se desdobra e constrói um saber arquitetônico que a academia não ensina.

Ser o homem Amarildo é viver na favela da Rocinha, que, como o professor Gerônimo nos lembra, tem o mais alto índice de tuberculose da cidade. É habitar uma casa e percorrer ruas sem condições básicas de habitabilidade, de segurança, de salubridade. É saber que a Rocinha não precisa de teleférico. Talvez precise, mas antes precisa de coleta de lixo e saneamento de qualidade, dos quais se têm direito apenas na limpa cidade dos ricos.

Falar em Amarildo é falar do Morro da Catacumba, na Lagoa, da Praia do Pinto, no Leblon, do Morro do Pasmado, em Botafogo; algumas das favelas apagadas da paisagem carioca. É falar, mais recentemente, da Vila Autódromo e das portas marcadas do Morro da Providência. É falar da gestão municipal que mais removeu no último século e dos tantos mil cariocas que, às custas de um sonho olímpico, têm ameaçado o seu inalienável direito à moradia.

É falar do déficit habitacional e, ao mesmo tempo, da política de governo que há décadas vem esvaziando os centros e lotando as favelas e periferias das grandes cidades. É falar dos sem-teto, das ocupações Machado de Assis, Zumbi dos Palmares, Quilombo das Guerreiras, removidas ou ameaçadas de remoção.

Saber da prisão, tortura e morte de Amarildo implica em ter o dever de saber da política pública de segurança higienista, da violência policial injustificada e injustificável. Do projeto de segurança e de cidade que extermina a juventude pobre, negra e favelada. Amarildo não foi o primeiro.

É saber que estamos a mercê dos desmandos de um Estado que aumenta a cada dia o efetivo policial, constrói mais prisões, instala mais câmeras e atira mais balas de borracha nos professores em greve; ao passo que destrói casas e bairros construidos com suor e autonomia corajosa.

Escolher como patrono um pedreiro é apenas um lembrete acerca do compromisso ético que firmamos enquanto arquitetos, de entender quem são os Amarildos, onde moram, como moram, porque moram.

Mais que uma homenagem, afirmamos: somos também Amarildos e seguiremos perguntando por ele e por todos os outros.”

Com informações da página de Facebook do movimento Mães de Maio.