Criar na cidade

São Paulo tem jeito?

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por Pedro Ribeiro Nogueira, Danilo Mekari, Julia Dietrich e Ana Luisa Basílio

Se o Brasil, como diria Tom Jobim, não é para principiantes, São Paulo é para profissionais. Rápida, agressiva, labiríntica, cinza, verde, desigual, cara, especulada, segregada, distante, mal-planejada, caótica, chuvosa e violenta, a cidade é o estado da arte da selva de concreto. No entanto, a poesia de Drummond já alertou que uma flor pode nascer na rua, os Racionais avisaram que até no lixão nasce flor e um cantor contemporâneo que atende pelo nome de Criolo fez com que nove entre cada 10 coisas que acontecem na cidade sejam interpeladas pelo refrão: existe amor em SP?

A retórica vale mais do que a resposta. Existir existe, é o que nos faz seguir em frente, mas temos que nos perguntar a cada vez que um gesto violento nos faz perder a esperança. Uma pesquisa recente mostrou que 55% dos paulistanos deixariam a cidade para morar em outro lugar.

Para não deixar a peteca cair no aniversário de 460 anos da cidade, comemorado neste sábado (25/1), o Portal Aprendiz listou 10 motivos que funcionam como uma luz no fim do túnel (da Rebouças depois de um longo congestionamento). Iniciativas, pessoas, fatos e traços da maior cidade da América do Sul que apontam que outra cidade é possível. Dez flores no asfalto. Confira!

1. Bairro Educador

HELIÓPOLIS – Bairro Educador (Português) from Andre Ferezini on Vimeo.

“Transformar Heliópolis num bairro educador”.

Essa é a bandeira do Pólo Educacional e Cultural de Heliópolis e São João Clímaco, construído em 2009, baseado na crença de que, a partir da educação, é possível organizar e gestar uma sociedade mais justa, igualitária e embasada na cultura da paz.

Se existe um bairro de São Paulo com potencial para ensinar como uma experiência educativa pode transformar as relações, espaços e pessoas, esse bairro é Heliópolis. Com um projeto pedagógico construído de forma democrática e em contato direto com seu entorno, a Escola Municipal Campos Salles converteu-se em um exemplo de escola onde professores, estudantes, famílias e comunidade estão diretamente envolvidos no processo educativo. Entre as ações realizadas pelo Bairro Educador destaca-se a Caminhada da Paz, uma passeata que mobiliza milhares de pessoas todos os anos, defendendo a bandeira da educação desde 1999 na comunidade.

2. Escolas que promovem inclusão social

Dona Eda, diretora do Cieja Campo Limpo, e um representante da educação indígena.

O Cieja Campo Limpo, localizado na zona sul da cidade, é uma escola de ensino fundamental da rede municipal de São Paulo voltada para a educação de jovens e adultos. Lá estudam pessoas de 15 anos em diante, dos mais diferentes perfis – jovens expulsos das escolas de origem, trabalhadores que resolveram terminar os estudos, senhoras que decidiram voltar à escola e todo o tipo de estudante que o ensino regular teve dificuldades de absorver, como cegos, surdos, pessoas com dificuldades mentais. Dos cerca de 1.300 alunos matriculados, 300 têm algum tipo de deficiência, e todos estudam de forma integrada aos demais.

O Cieja oferece seis turnos distintos, cada um de duas horas e meia de duração – baseado na legislação que permite que metade do tempo do aluno seja cumprido com atividades fora da escola. Em vez das séries tradicionais, que vão da classe de alfabetização até o 9º ano, os alunos são distribuídos em quatro módulos, segundo seu nível de conhecimento: alfabetização, pós-alfabetização, intermediário e final.

A escola também está fortemente integrada a sua comunidade; é um espaço no qual as mães, pais e familiares dos estudantes podem conviver e participar ativamente da vida dos estudantes. Lá, projetos de vida são valorizados como ponto de partida para a construção do conhecimento acadêmico, que agrega também, a sabedoria das ruas, moradores, professores e dos próprios estudantes.

3. Outras formas de pensar as relações comerciais

São Paulo pode ser uma das cidades mais caras do mundo e sem dúvida seus preços assustam qualquer cidadão. Contudo, com a vontade de entender que o dinheiro não pode ser um instrumento de exclusão social e nem um impedimento para o aproveitamento dos bens culturais de uma cidade, estão surgindo cada vez mais iniciativas locais, comunitárias e até metropolitanas que tentam propor novas formas de se “comprar” e “vender” na cidade.

No Jardim Maria Sampaio, localizado no subdistrito do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, moradores criaram o Banco Comunitário União Sampaio, que oferece serviços financeiros e bancários gerenciados pela própria comunidade. Por meio de uma estratégia de microcrédito, os comerciantes locais não só desenvolvem seus próprios empreendimentos como, com o apoio de fóruns comunitários, gerenciam os empréstimos e sistema de crédito e uma moeda local, chamada de, claro, “Sampaio”.

Também na Zona Sul da cidade está a Agência Solano Trindade que congrega coletivos e movimentos culturais da região. Para apoiar o desenvolvimento de artistas e da produção cultural na cidade e, em especial, da periferia , foi criada a moeda social “Solano”, que permite trocas de serviços, ações e produtos entre aqueles envolvidos. Por exemplo, montar um convite bacana para divulgar uma exposição exige certos conhecimentos de linguagem. No lugar de contratar qualquer designer, o artista pode “pagar” o serviço oferecendo, no lugar de dinheiro, por exemplo, uma peça por ele confeccionada.

4. Cidade inteligente

Viver em São Paulo pode se tornar mais fácil com as novas tecnologias, além de nos fazer cidadãos com escolhas mais conscientes. Aplicativos de celulares passam em tempo real informações sobre o enchentes, trânsito, ônibus, taxis. O Guia Cultural da Quebrada compila atividades de lazer e cultura na periferia paulistana. Uma cartilha auxilia comunidades na formulação de seu desenvolvimento local.

O aplicativo Moda Livre informa quais são as lojas que têm ligações com o trabalho escravo, enquanto o site “Arquitetura da Gentrificação” nos informa sobre movimentações de empreiteiras que encarecem nossos alugueis e sonhos de casa própria, expondo as desigualdes da cidade. E por que não usar a cidade como um lugar de ensino? Uma plataforma mostra como usar a cidade para estudar para o Enem, enquanto outra informa sobre atividades educativas e ambientais.

5. O transporte custa R$ 0,20 centavos a menos

Ainda é caro, sabemos. Ainda é insuficiente, é claro. Mas o ano de 2013 ficará pra sempre marcado pela revolta da tarifa, do vinagre e de tudo quanto é coisa. O povo paulistano, que luta diariamente para sobreviver, mostrou que pode e sabe batalhar por mais, pelo pão, pelas rosas e pelo que ele ainda nem sabe o que é ou sabe muito bem: transporte público de qualidade, moradia, cultura, lazer, rolêzinho educação pública, saúde decente, um mundo menos injusto e segregado e uma outra cidade.

O gigante acordou, nunca dormiu ou voltou a dormir? Depende de quem está falando. De toda forma, como uma pedra que cai no meio de um lago, ainda estamos às margens sentindo as ondinhas, que se traduzem na proposição de novas fórmulas para a vida, no inconformismo necessário diante do inaceitável, na discussão política como a arte do bem comum em bares, ruas, casas e avenidas. No que deu tudo aquilo? Veremos nos próximos anos. Tudo que sabemos até agora é que dá uma alegria entrar no ônibus e ver que a passagem ainda está R$ 3,00 e pensar em como fizemos isso, com a certeza de que dá pra fazer muito mais.

6. Movimentos pela Mobilidade Urbana

Nada de carro, ônibus, metrô, trêm e nem mesmo bicicletas: o movimento SampaPé nasceu com o objetivo de estimular os cidadãos paulistanos a praticar uma das atividades mais antigas da humanidade: caminhar.

O coletivo acredita que a exploração da cidade com os próprios pés é importante para as pessoas enxergarem São Paulo de outra maneira, proporcionando interação com seus espaços e experimentando a cidade de outra maneira.

Ao mesmo tempo, a bicicleta vem ganhando cada vez mais espaço no cotidiano dos paulistanos. Nos últimos anos surgiram vários grupos de passeio, que reúnem dezenas de ciclistas fazendo o mesmo trajeto. Uma nova ciclovia de 37 quilômetros, ligando o bairro de Pinheiros à região da ponte João Dias, foi anunciada recentemente pela Prefeitura.

Para os iniciantes na magrela que ainda têm receio de sair pedalando pelas ruas movimentadas, São Paulo abriga movimentos de apoio ao ciclista, como a rede Bike Anjo. Composta por ciclistas experientes, eles ensinam gratuitamente quem quiser aprender a andar de bicicleta pela metrópole com segurança. O objetivo central do grupo é simples: quanto mais gente pedalando, maior a visibilidade para este meio de transporte e, ainda, menos carros circulando nas ruas.

7. Movimentos pela Ocupação do Espaço Público

Por muitos anos, São Paulo foi uma cidade proibida e proibitiva. Não se podia fazer nada que fugisse da norma estabelecido por alguém que há algum tempo não sentia o cheiro da rua. Essa condição começou a movimentar insatisfações, que uma vez em marcha, mostraram que a cidade também é pra dançar.

O festival Baixo Centro, que acontece anualmente, ocupa as ruas da cidade com inúmeras atividades artísticas financiadas coletivamente e já teve duas coloridas e sonoras edições. A cada ano que passa, mais e mais blocos de carnaval de rua tomam as avenidas de assalto para mostrar que por aqui se samba. Festas públicas e auto-gestionadas, promovidas por coletivos, como barulho.org, oferecem opções gratuitas para os habitantes e visitantes da metrópole.

Além disso, grupos começam cada vez mais a batalhar por espaços públicos, como o Parque Augusta e o Parque Vermelhão, na favela do Moinho. E se há uma coisa inegável sobre a cidade, é que os muros gritam em cores. Becos, vielas, paredões servem de tela para as criativas mãos e sprays de grafiteiros, como Mundano, Zelão, Os Gemeos e grande elenco, ou de suporte para os anônimos e autorais pixos. O Beco do Batman e o Beco do Aprendiz, na Vila Madalena, funcionam como galerias à céu aberto para o publico curioso.

Neste sábado, aniversário da cidade, diversos coletivos estarão nas ruas para realizar uma festa pública.

Cena de “Jaçanã e o Adoniran”, de Rogério Nunes.

8. Samba Paulista

Em um bar, numa noite paulistana, o carioca Vinícius de Moraes, durante uma discussão com alguns barulhentos frequentadores que não o deixavam ouvir o show Johnny Alf, esbravejou que aquilo ali era o túmulo do samba. A frase, localizada, se tornou um mantra involuntário, alimentando rivalidades bairristas e atacando a auto-estima do paulistano. Quando Adoniran Barbosa, parceiro de Vinícius na linda “Bom Dia, Tristeza”, faleceu, uma de suas mais famosas elegias que declarava que enfim a cidade havia se tornado o túmulo do samba.

Desfeita a confusão, que tanta água jogou em nosso chope, encontramos as raízes de nosso samba em Pirapora do Bom Jesus, que viu seu samba de roda descer o Tietê e ir parar no Bixiga, onde imigrantes italianos dividiam cortiços com escravos recém-libertos. Da Casa Verde à Freguesia do Ó, de Santo Amaro até o Tatuapé, não é nada difícil encontrar bons sambas de roda, escolas de samba e tantos outros batuques de botecos.

Eduardo Gudin, Osvaldinho da Cuíca, Paulo Vanzolini, Samba da Vela, Samba do Bule, Os Demônios da Garoa, Geraldo Filme, Noite Ilustrada, o Grupo Kolombolo e muitos outros seguem por aí, não deixando o samba morrer, nem acabar.

São Paulo abriga o único restaurante brasileiro a possuir três estrelas no Guia Michelin: o D.O.M, do Alex Atala.

9. Gastronomia

São Paulo nunca foi um paraíso, mas deve ter um departamento de marketing muito eficiente. Afinal, povos de todo o mundo e de todo o Brasil convergiram – e ainda convergem – para a cidade. Junto com a trouxinha de roupas, algumas economias e esperanças, vieram as panelas, ingredientes e receitas de qualquer canto imaginável do mundo.

China e Japão foram para a Liberdade, enquanto a Coreia se aloja ali perto, no Bom Retiro, um bairro judeu com nome cristão que também abriga um restaurante búlgaro e bolivianos, que têm toda semana uma feira no bairro do Pari. Ali atrás do Canindé, estádio da Portuguesa, que também têm um restaurante nordestino de primeira. Voltando para o centro, um restaurante peruano fica logo ao lado dos nascentes africanos, frutos das mais recentes imigrações.

Em toda e qualquer parte, cantinas italianas e pizzarias se revezam com padarias portuguesas e seus doces de ovo e não raro tem um árabe ou um nordestino ali na esquina. Na falta de um ou de outro, é possível encontrar um arroz com feijão caseiro, com bife e salada, com preços acessíveis. Ah, e tem também aquele tal de Atala.

Quem quiser conhecer melhor pode começar pelo livro “Guia da Culinária Ogra”, de André Barcinski. Muitos bons blogs com resenhas de lugares para conhecer sem perder todas economias estão disponíveis na internet, como o “Yakissoba, não!”.

10. Saraus e iniciativas de promoção à literatura

Mais do que vez, a literatura ganha vozes por São Paulo. Pela cidade é possível encontrar boas oportunidades de contato com os livros e também com aquelas criações literárias que estão nos cadernos, nos rascunhos, nos pensamentos. O coro é infantil, de adultos, da periferia.

No Parque da Água Branca, a experiência literária transcende as linhas manuscritas; a ideia do Espaço de Leitura é que as histórias sejam aproximadas das vivências do território. Aos fins de semana, o convite à leitura vem com a Feira de Troca de Livros.

Na zona sul de São Paulo, no Parque Santo Antônio, o Sarau da Cooperifa, que acontece toda a semana, fomenta um processo de criatividade e autoria pela comunidade, que vê em cada estrofe a possibilidade de se comunicar.

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