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Imigrantes trocam conhecimentos com estudantes em escola pública

Imagine a cena: uma sala de aula em uma escola estadual de São Paulo com dez solicitantes de refúgio no Brasil – um casal de sírios e oito nigerianos – e cerca de 70 alunos atentos e interessados em conhecer suas culturas e histórias de vida.

Créditos: Danilo Mekari

Pois ela aconteceu na última sexta-feira (25/4), em um encontro do projeto Trilhas da Cidadania com os alunos do ensino fundamental e médio da Escola Estadual Canuto do Val, na Barra Funda. O encontro despertou a curiosidade tanto dos adolescentes – dispostos a conhecer mais sobre culturas estrangeiras – quanto dos imigrantes, ansiosos para se adaptarem ao país e, principalmente, à língua portuguesa, um dos maiores obstáculos nesta chegada.

Para receber os visitantes, os alunos preparam bolo de fubá e pão de queijo, acompanhados por café com leite, e distribuíram uma receita desses quitutes típicos do Brasil.

Os solicitantes de refúgio participam de aulas do Trilhas da Cidadania três vezes por semana. Além da língua portuguesa, o projeto promove a integração dessas pessoas através do ensino de aspectos culturais e de cidadania do Brasil. O projeto é uma parceria entre a Associação Cidade Escola Aprendiz, a Caritas Arquidiocesana de São Paulo e a Editora Moderna, com o apoio do Museu de Arte Sacra de São Paulo.

Sírios

Os solicitantes de refúgio puderam então contar um pouco de suas vidas. O casal de sírios Faraj e Mayada retomou a história da capital de seu país, Damasco, lembrando que se trata da cidade mais antiga do mundo: segundo historiadores, ela foi fundada 9 mil anos a.C. O idioma aramaico – que, de acordo com Faraj, era a língua “falada por Jesus Cristo” – e as atividades do Festival de Rameaux do país também foram citados.

Quando alunos perguntaram a opinião deles acerca da guerra civil na Síria, onde já ocorreram mais de 150 mil mortes desde 2011 (de acordo com a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos), Faraj foi sucinto: “a integridade do nosso país e de todos os cidadãos é mais importante do que as vontades do presidente”.

Nigerianos

A maioria dos nigerianos presentes no encontro pertence à etnia Igbo e adora sopa de peixe com inhame. Tanto que, assim como os alunos, eles também passaram as receitas de seus pratos prediletos e mostraram vídeos sobre festivais e danças tradicionais do país. Houve até quem arriscasse alguns passos em plena sala de aula: Victor, ao ouvir a música de sua terra natal, balançou o corpo em uma dança típica africana, recebendo aplausos dos alunos e colegas.

Créditos: Danilo Mekari

Eddynice fez questão de mostrar imagens e lances do jogador de futebol nigeriano Nwankwo Kanu, um de seus maiores ídolos no país, que jogou em clubes importantes da Inglaterra e Itália e foi campeão olímpico em 1996, eliminando a seleção brasileira na semifinal do torneio.

Um dos destaques do encontro ficou por conta de Nicholas. “Vocês são muito bonitos”, declarou o nigeriano, antes de mostrar o clipe uma de suas músicas preferidas: African Queen, de 2Face Idibia, quando aproveitou para soltar a voz e alegrar os estudantes. Curiosos acerca das vestimentas coloridas usadas pelas mulheres no vídeo, os jovens queriam saber se aquelas roupas são usadas no dia a dia. “Na verdade, essas são as roupas usadas em eventos tradicionais do país, como festivais e casamentos”, respondeu Victor.

Brasil

Em contrapartida, o professor Zeca, de História, lembrou que grande parte da cultura brasileira tem herança africana. “Acarajé, feijoada, nossa linguagem, a capoeira, tudo isso surge de uma mistura entre as nossas culturas”, ressalta. Os alunos do 9º ano preparam uma apresentação de capoeira para os visitantes, que puderam esclarecer algumas dúvidas sobre a prática: “é dança ou luta?”. “Era luta antigamente, quando os escravos usavam seus próprios corpos pra se defender. Hoje é dança”, respondeu o professor.

Os alunos, então, puderam fazer uma série de perguntas. O que eles estão achando do Brasil? Já sofreram preconceito? Do que sentem falta de sua terra natal?

“O povo brasileiro tem me recebido muito bem. É aberto e acolhedor. Ainda tenho muita dificuldade com a língua, que é bonita, mas muito difícil”, analisou Victor.

“Achei o encontro muito interessante. Deu pra conhecer novas culturas e novas pessoas que estão a fim de morar na mesma cidade que nós”, afirmou Josias, estudante do 9º ano que é descendente de paraguaios.

Os solicitantes de refúgio estão participando do Trilhas da Cidadania desde o início de fevereiro e têm a formatura prevista para o mês de maio.