Desempenho semelhante, custo maior

"É  o amor pela escola". Assim a diretora do Ciep estadual Maestro Guerra Peixe,
em Petrópolis, Iara dos Santos Fernandes, explica o segredo para o bom desempenho: mais de 90% dos estudantes aprovados em 2005. Mas o exemplo está mais para exceção do que para regra. De acordo com as secretarias estadual e municipal de Educação do Rio, apesar de o custo de um aluno do Ciep (em horário integral) ser de duas a quatro vezes maior que o de um estudante da escola convencional, eles têm desempenhos semelhantes.

Segundo dados da Secretaria municipal de Educação do Rio, o aluno de uma escola convencional custa R$ 88,68 por mês. No Ciep em tempo integral, R$ 171,47, ou seja, quase o dobro. Ainda segundo o órgão, no ano passado a aprovação, em média, foi a mesma nos dois casos: 88%.

Sônia Mograbi, secretária municipal de Educação, reconhece que o desempenho do aluno precisa ser melhorado não apenas nos Cieps, mas em toda a rede:

"Além de combater a evasão, a escola precisa levar nosso estudante a concluir o ensino fundamental com êxito".

Secretária de Educação do município do Rio de 1993 a 1996, a professora e atual presidente da MultiRio, Regina de Assis, diz que os dados a que teve acesso na época também não indicavam diferenças significativas em relação a desempenho escolar, embora "os professores dos Cieps tivessem atenções e regalias maiores do que os da maioria das escolas regulares."

A Secretaria estadual de Educação informou que manter um estudante em horário parcial em escolas regulares custa R$ 0,62 por dia. Já o gasto com um aluno de Ciep em tempo integral é de R$ 2,24 por dia, ou seja, 3,6 vezes mais.

Os dados de desempenho do Programa Nova Escola, que levam em conta as provas de português e matemática, mostram que há uma pequena diferença de rendimento: dos 40 Cieps em horário integral analisados, há um (2,5%) em nível 5, o melhor. Nas 1.640 escolas da rede, há 41 (2,5%) no melhor nível. A diferença acontece nos níveis 4 (o segundo melhor) e 1 (o pior), em que o Ciep mostra ligeira vantagem em relação às escolas convencionais. No nível 4, estão nove Cieps (22,5% do total) e 102 escolas convencionais (6,2%). Só dois Cieps (5%) estão no pior nível, enquanto nas escolas regulares há 345 (21%) com o rendimento mais baixo. Nos outros níveis, os percentuais são praticamente idênticos.

"Em termos estatísticos, é uma diferença muito pequena", avalia Francisco Tadeu Correia, responsável pelo Nova Escola.

Além do custo com refeições e manutenção dos Cieps, o estado gastou, de 2002 a 2005, de acordo com dados levantados pelo gabinete do deputado Alessandro Molon (PT) no Sistema de Administração Financeira do estado, R$ 10,8 milhões com pagamentos à Fundação Darcy Ribeiro. Segundo a presidente da entidade, Tatiana Memória, o seu principal papel foi a formação de professores. Mas ela admite o fracasso da parceria com o estado:

"Tentamos dar uma assessoria maior, resgatar as matrículas. Mas não quero o nome da fundação ligado ao de uma escola de horário integral que é uma mentira. Tentei por cinco anos o resgate do horário integral, mas não consegui".

Mesmo em escolas que servem de exemplo, como o Ciep Maestro Guerra Peixe, o sucesso acontece quase sempre por esforços individuais. Quando assumiu a direção, há três anos, Iara Fernandes encontrou um Ciep esvaziado e marcado pela violência. Com as classes de aceleração resolveu as brigas provocadas por alunos maiores, de 14 e 15 anos, que eram misturados com os pequenos nas turmas do primeiro segmento do ensino fundamental. Convocou a comunidade  para dentro da escola e hoje o laboratório de informática serve às crianças e aos pais.

O difícil agora no Ciep é convencer voluntários como Reginaldo Gomes de Lima, de 76 anos, subtenente da PM e músico aposentado, a sair da escola. Todas as manhãs, ele bate ponto para dar aulas de música aos integrantes da banda que formou mesclando alunos do ensino regular com portadores de necessidades especiais.

"Quando eles me vêem, correm para me abraçar", diz ele, conhecido na escola como "Meu Rei".

(O Globo)