Escolas hoje são chatas, diz Rubem Alves

"A escola é chata porque está nas mãos dos burocratas." A opinião expressa bem o que pensa o educador e escritor Rubem Alves, 72, sobre o sistema educacional vigente no país. Para Alves, professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e o segundo convidado da série de dez sabatinas que a Folha promove neste ano, as escolas estão preocupadas com a administração e não levam em consideração as crianças.

Segundo o professor, as escolas erram em ensinar coisas que os alunos nunca vão usar e, mais que isso, estão longe da realidade de vida deles. "As crianças de uma favela de São Paulo não podem aprender as mesmas coisas que os alunos da Amazônia."

Teólogo e ateu, Alves se posicionou contrário à reeleição do presidente Luiz Inácio de Lula da Silva. "Eu não quero que isso tudo continue. Fico triste com a corrupção, a bagunça, pelo povo brasileiro, a poluição, a sujeira nas ruas. É tudo junto", disse ontem.

Entrevistado pelo colunista da Folha Gilberto Dimenstein, pelos repórteres Antônio Gois e Laura Capriglione e Oscar Pilagallo, colaborador da Folha e editor da revista "EntreLivros", Alves falou também sobre política e religião.

ESCOLAS – A escola é chata porque está nas mãos dos burocratas. Não está relacionada com a vida, não leva em consideração as crianças. Elas têm curiosidade, querem saber de todas as coisas. Há muito tempo, minha neta Mariana, no seu primeiro aniversário, estava sentada na grama. Eu fui ver o que estava acontecendo, e ela perplexa olhando a minhoca. O mundo é cheio de espanto, e as crianças querem aprender o espanto, mas, chegam à escola e têm que aprender sobre mitocôndrias.

INTELIGÊNCIA – Acho que a inteligência surgiu porque o nosso corpo é incompetente para resolver os problemas da vida. As aranhas fazem teias, os tatus, buracos; o corpo dos animais são ferramentas, eles não precisam pensar porque já nascem com as ferramentas. Somos tão incompetentes que temos que pensar. Comparo a inteligência ao pênis. Ela é flácida, mas, se provocada, começa a sofrer transformações hidráulicas incríveis.

VESTIBULAR – É preciso primeiro acabar com o vestibular. O terrível do vestibular é que as pessoas têm que saber tudo. E ninguém precisa disso. A competência só não chega. Para que serve uma canção? Para nada. Mas é tão maravilhoso, tem a ver com a convivência das pessoas. Entre os alunos, tem que se aprender como conviver, a gostar da vida, não só aprender a passar no vestibular.

CRIANÇAS – Ter respeito pela criança é fundamental. Fico irritado quando vejo as pessoas tratando as crianças como débeis mentais. Acho que as crianças, quando ouvem a mãe dizendo "comidinha" e tudo no diminutivo, deve ficar pensando "acho que minha mãe é pinel". Tratá-las normalmente é torná-las iguais.

PROFESSORES – O que faz um educador é a relação que tem com o aluno, e isso não ocorre com nenhuma nova lei. É preciso mudar a cabeça e o coração dos professores. A missão não é dar um programa, é cuidar dos alunos. Acho que muito da desgraça dos professores tem a ver com o fato de eles acharem seu trabalho tedioso. E passam isso aos alunos.

REELEIÇÃO – Sou contra [a reeleição de Lula]. Eu não quero que isso tudo continue. Fico triste com a corrupção, a bagunça, pelo povo brasileiro, a poluição, a sujeira nas ruas. É tudo junto.

PAIS – Em muitos casos, os pais são os piores inimigos da educação, pois não estão interessados na educação dos filhos. Querem que os filhos passem no vestibular. Agora, o que ele faz com aquele diploma? Nada.

COTAS – Eu sou completamente contrário. Vai criar raiva. Daqui a pouco vamos ter cota para gay, para japonês, eu não gosto da idéia.

DEUS – O Deus que fez o inferno, não acredito. O Deus que sacrificou o filho, o Deus que cobra as contas porque nós somos devedores… Deus que só perdoa com derramamento de sangue? Eu não acredito nesse Deus. E eu sou possuído pela beleza. Quando eu estou suspirando, eu estou rezando. Fico horrorizado porque acham que Deus é sádico, fazem promessa de subir 400 degraus de joelhos. Mas, se você pegar o Velho Testamento, está ali que Deus criou a gente para o gozo, para a felicidade, todo mundo peladão, um jardim das delícias. Essa idéia de sofrimento, não sei como entrou.

MORTE – Ainda não me decidi se morreu, acabou. Estou mais para [o poeta Mario] Quintana: "morrer que me importa, o importante é viver". O universo é um grande computador. Talvez Deus seja o disco rígido do universo e nós somos os documentos salvos. A razão de viver é amar e ser amado.

(Folha de S. Paulo)