Especialistas discutem a influência dos meios de comunicação na infância

Especialistas em mídia e educação se reuniram na última terça-feira (11/07) para discutir a influência dos meios de comunicação na infância. E uma conclusão foi unânime: a mídia tem mais potencial educativo quando crianças e adolescentes têm a possibilidade de criar produtos de comunicação, do que quando eles são meros consumidores, ainda que seja de programas educativos.

Para o consultor de tecnologia educacional, inclusão digital e redes sociais Carlos Seabra, os meios de comunicação são uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de processos educacionais, uma vez que ajuda a criança a distinguir entre o que é real e o que é inventado. "Ao saber como é feita a televisão e para que serve, a criança fica menos vulnerável à propaganda e aos valores transmitidos na programação".

Para ele, os educadores precisam parar de "demonizar" os meios de comunicação, em especial a televisão, e utilizá-los em benefício da educação. O especialista recomenda que as crianças possam criar, mexer e editar materiais, como por exemplo vídeos, e, dessa forma, possam pensar em que programa elas gostariam de ver.

Para a jornalista Beth Carmona, diretora da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, é praticamente impossível não pensar em utilizar a TV como instrumento educativo. "Não podemos esquecer que a TV é o único instrumento que tem o poder de entrar na casa das pessoas. Precisamos pensar em como proporcionar essa relação das emissoras de televisão com a educação, mesmo com todo o interesse comercial que elas possuem", diz.

"No entanto, para isso é preciso que aconteça uma mudança estrutural em nosso país", afirma Ana Lúcia Villela, presidente do Instituto Alana. "Ainda vivemos em uma lógica que vê a classificação indicativa como censura e a produção de rádios comunitárias como crime", afirma.

De acordo com Carmona, a criança precisa ter uma programação de qualidade, não preconceituosa e não-apelativa. "Na realidade, a programação educativa acaba tendo espaço apenas nas emissoras públicas, que tem pouquíssima verba para concorrer com a grande mídia", diz Carmona. "Um programa como o Castelo Ra Tim Bum, que durou um ano e meio para ficar pronto, só conseguiu pouco mais de 30 capítulos. A verba não chega perto da utilizada pelas grandes redes na gravação de uma novela".

Villela lembra a medida tomada por alguns países, que determina que as grandes redes financiem um programa educativo nas emissoras públicas. "Pode não ser essa a solução ideal, mas é importante que o Brasil pense com urgência uma medida que torne viável a manutenção de uma programação educativa de qualidade", diz.

A palestrante critica duramente o governo e as emissoras, que segundo ela, não se reconhecem como responsáveis pelo conteúdo abusivo da programação e das propagandas, que muitas vezes transformam a criança em consumidora. "É completamente sem sentido deixar unicamente para os pais a responsabilidade de impedir que o filho veja uma programação que estimula a violência ou o consumismo entre as crianças. Até porque os pais só saberão disso ao ver esse conteúdo e aí pode ser tarde".