Estudo revela causas de estresse no trânsito

Na próxima vez que o trânsito parar completamente, olhe para o lado. Alguns motoristas estarão calmamente falando ao celular ou relaxando com uma música tranqüila. Outros, nervosos, vão botar a mão na buzina ou virar na contramão para fugir dali rapidinho.


Entre os calminhos pode estar a estudante Mariel Trabulse, 22, que tenta adotar uma postura zen para encarar o estresse. No segundo grupo, talvez encontre o analista de sistemas Cleber de Camargo Campos, 21, que instalou uma buzina mais potente em seu Corsa para extravasar.


Em comum, o fato de ambos já terem passado por situações de extrema irritação no trânsito da cidade de São Paulo, cuja frota já ultrapassa 5 milhões de veículos.
Eles não estão sozinhos. Pesquisa realizada com 500 motoristas paulistanos no ano passado sugere quais são as principais razões de estresse e de comportamentos agressivos ao volante.


Ser “fechado” numa estrada liderou a lista do que mais incomoda (foi motivo de irritação de 96,2% dos entrevistados), seguido por ter alguém dirigindo muito próximo ao seu pára-choque traseiro ou com farol alto e ter sua vaga “roubada” por outro veículo na espera para estacionar. Esses itens foram citados por mais de nove em cada dez motoristas.


Os motoristas se queixam, mas também admitem cometer seus “pecados” no trânsito -28,8% dizem exceder os limites de velocidade, situação que é uma das principais causas de acidentes. E, diante de supostos erros dos outros, 37,8% reconhecem reagir com hostilidade, como gestos e gritos, e 29,8%, com a buzina.


O resultado dessas entrevistas é parte da tese de doutorado que a psicóloga Gislene Maia de Macedo, 35, vai defender na Universidade de São Paulo em novembro.


Professora da Universidade Católica Dom Bosco (MS), discutirá o tema no 6º Congresso Brasileiro de Psicologia do Trânsito, a ser realizado de 10 a 13 de novembro em Campo Grande.


Para sua pesquisa, ela entrevistou homens e mulheres de diversas faixas etárias, que conduzem seus veículos no mínimo três vezes por semana. Em suas conclusões, relaciona a agressividade ao volante a comportamentos de risco dos mesmos motoristas.


“Situações que impedem ou dificultam a mobilidade são as maiores causadoras de estresse, o que acaba gerando um comportamento agressivo”, afirma.
O resultado das entrevistas revela uma teia de contradições dos motoristas, que demonstram não ter consciência das situações de risco em que acabam envolvidos.


Quase 95% dos condutores dizem se irritar com quem fica muito perto do pára-choque traseiro de seu veículo, mas 26% admitem que também costumam “grudar” no carro da frente para forçá-lo a andar rápido ou a dar passagem.


O “pecado” no trânsito (violações à lei ou comportamentos agressivos) que os entrevistados mais admitiram cometer também chama a atenção de especialistas: 49% se dizem impacientes com um motorista lento na faixa da esquerda e, por isso, tentam ultrapassá-lo pela direita.


Um outro resultado das entrevistas indica a falta de consciência em relação aos riscos de acidentes viários, que deixam mais de 30 mil mortos por ano no Brasil: 18% admitem dirigir mesmo sabendo que ingeriram mais álcool do que a quantidade permitida.


“São violações graves da lei, mas que muitas vezes não incomodam os motoristas porque eles sabem que fazem algo parecido”, diz Horácio Figueira, engenheiro especialista em segurança de tráfego.


(Folha de S. Paulo)