O grande salto da educação chinesa

Há vários anos, a fábrica de automóveis chinesa Geely ficou preocupada com a escassez de trabalhadores bem treinados. Sua solução: gastar US$ 800 milhões para criar uma universidade privada.

Há apenas uma década, a idéia seria quase inimaginável. Mas em 2000 o vasto campus da Universidade Geely de Pequim, com seu quadrilátero inspirado em Stanford, foi aberto na periferia da capital chinesa – aumentando a lista das cerca de 1.300 universidades privadas surgidas no país nos últimos anos. Em setembro, a Geely receberá a matrícula de cerca de 20 mil estudantes em todas as áreas de ensino, da engenharia ao inglês, passando pela educação do caráter.

Enquanto continua a crescer no cenário econômico global, a China passa por uma das mais ambiciosas expansões de educação superior do mundo. Estimulado por um apelo do governo, no fim dos anos 90, em favor da construção de universidades de padrão internacional e da ampliação do acesso das massas, o país abre as portas de instituições que outrora serviam a uma reduzida elite. A China investe em pesquisa, dá boas-vindas a empreendimentos privados como a Geely e amplia o currículo para garantir que seus diplomados fiquem por cima numa economia mundial baseada no conhecimento.

Como muitas coisas na China, o movimento acontece rapidamente – e em dimensões impressionantes.

"É uma expansão sem precedentes", diz Gerard Postiglione, especialista em educação da Universidade de Hong Kong. Ela tem sido promovida, observa ele, sem a instabilidade que um crescimento tão rápido poderia provocar. "É algo que nunca aconteceu em outro lugar em termos de escala."

Desde 1998, quando o então presidente Jiang Zemin discursou no centenário da prestigiada Universidade de Pequim e lançou um apelo por mudança, o número de estudantes no ensino superior triplicou. O país agora supera líderes como Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão em número de alunos em faculdades e universidades.

Em 2010, estimam funcionários chineses, pelo menos 20% dos formados no ensino médio estarão freqüentando algum curso superior. Espera-se que o índice suba para 50% até 2050. A China tem atualmente cerca de 20 milhões de estudantes no ensino superior.

Mas a mudança abala os fundamentos de práticas antigas. A introdução das forças de mercado ao longo dos anos 90 trouxe a educação paga e novas faculdades privadas. Os educadores adicionam cursos para atender a uma demanda crescente por trabalhadores qualificados. As escolas têm de se adaptar rapidamente à disparada das matrículas. Por exemplo, a reorganizada Universidade de Zhejiang, perto de Xangai, tinha cerca de 10 mil estudantes em meados da década de 90 e agora tem 45 mil, graças em parte à fusão com outras universidades.

Para os novos graduados, a mudança mais dramática pode ser a de que um diploma de bacharel de uma escola prestigiada – outrora um trampolim garantido para o sucesso – agora é visto simplesmente como um primeiro degrau da escada econômica. Mais estudantes planejam fazer mestrado e até mesmo doutorado. De fato, o número de doutores em ciência e engenharia quase dobrou de 1996 a 2001, chegando a mais de 8 mil. Alguns observadores dizem que, dentro de uma década, a China provavelmente abrigará algumas das principais escolas de engenharia do mundo.

"Este é um período crucial para as universidades chinesas", afirma Shi Jinghuan, diretora-executiva do Instituto de Pesquisa da Educação da Universidade Tsinghua, em Pequim. "A sociedade inteira, incluindo o ensino superior, está em transição."

Na Tsinghua, os alunos que se formarão neste ano estiveram entre os primeiros a sentir o impacto do estudo numa das sete instituições escolhidas para competir com universidades ocidentais como Harvard e Sorbonne. A escola aumentou o número de intercâmbios com acadêmicos estrangeiros, recrutou-os para lecionar e oferece algumas aulas em chinês e inglês. Conhecida por várias décadas como o MIT (sigla em inglês do prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts) da China, a universidade está exigindo educação mais geral e permitindo que os alunos se matriculem em várias faculdades, de administração a arquitetura. A maior parte dos professores estudou no exterior. Atividades extracurriculares são populares, do venerável coral a uma recém-criada equipe de remo. Praticamente todos os estudantes têm familiaridade com o inglês e muitos falam a língua fluentemente.

A onda de iniciativas é ao mesmo tempo positiva e um pouco confusa para os estudantes. "A faculdade nada mais é que autoconhecimento", afirma Yi Fang, que acaba de se formar em finanças e fará mestrado em marketing. Mas muitos de seus amigos, conta ela, ainda tentam aceitar o fato de que nem mesmo um diploma da Tsinghua significa necessariamente um imediato salto à frente.

"Muitos queriam entrar no mercado dos bancos de investimento, mas não conseguiram", conta Yi em bom inglês, ecoando os nascentes yuppies americanos dos anos 80. Ela faz uma pausa. "Tenho muitas opções. Há mais incerteza do que há quatro anos."

Parte da incerteza vem da intensa concorrência entre os formados. Tendo escolha, a maioria dos estudantes ainda opta por uma escola pública de renome. Mas as instituições privadas, como a Universidade Geely de Pequim, têm um trunfo a oferecer: habilidades práticas que podem render um emprego rapidamente.

"Há muita concorrência entre as universidades – há uma grave escassez", diz o presidente executivo da Geely, Luo Xiaoming. Mas simplesmente aumentar o número de vagas nas universidades existentes não é a resposta, afirma ele. "Isso afeta a qualidade. E isso nos dá uma oportunidade."

Luo enumera as metas de sua escola. A prática e o trabalho científico são indispensáveis, diz ele, assim como a teoria – "mas não muito". E há a educação de caráter. "Isto é muito importante", insiste, afirmando que o jovem cidadão com formação sólida é essencial para o futuro da China.

A Geely é mais cara que as faculdades públicas. Cobra cerca de 8 mil yuans (US$ 1 mil) por ano, enquanto as públicas normalmente custam 6 mil yuans. É possível obter ajuda financeira, diz Luo. E sua universidade dá emprego: quase 100% dos formados receberam ofertas de trabalho no ano passado, muitas da própria Geely, afirma o presidente. A fonte do sucesso, argumenta ele, é a cultura da inovação.

Esse foco no pensamento heterodoxo – assim como no desenvolvimento de jovens acadêmicos que podem lidar ao mesmo tempo com Platão e programas de computador – ajuda a impulsionar a reavaliação da China. O país, é claro, valoriza a educação há muito tempo. Os preceitos de 2.500 anos de Confúcio fundamentaram o ensino até há pouco mais de um século. A influência européia e americana ajudou a construir um rico sistema universitário no século 19 e início do 20.

Mas em 1949 as regras mudaram. "No curso da revolução, a China destruiu uma das áreas de educação superior mais promissoras fora da Europa e da América do Norte", diz William Kirby, reitor da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Harvard e estudioso da China. A tumultuada Revolução Cultural dos anos 60 e 70 foi particularmente nociva: os exames de admissão nacionais foram temporariamente suspensos, os estudantes ignoraram as aulas e as escolas pararam de admitir novos alunos – e de formar os existentes.

"As pessoas realmente compreendem que (a Revolução Cultural) paralisou a China por vários anos e a isolou", afirma Shi. Hoje, diz ela, os chineses estão de olho no "padrão mundial" – seja nas questões da Organização Mundial do Comércio ou na engenharia biomédica. E eles se concentram em compensar o atraso.

"É impressionante a força com que a China ressurgiu como um dos líderes do mundo em desenvolvimento e como um líder do desenvolvimento global do talento técnico", afirma Kirby.

O impulso rumo aos padrões internacionais, no entanto, representa um desafio particularmente delicado: como lidar com a discussão mais aberta de temas politicamente sensíveis e com a maior liberdade acadêmica, que podem levar alguns a questionar a autoridade aceita.

Já houve progresso. "Assuntos históricos que costumavam ser delicados estão sendo discutidos mais abertamente pelos acadêmicos", diz Kirby. "É possível fazer pesquisas sérias sobre o governo nacionalista (pré-1949), por exemplo, e louvar (o então líder) Chiang Kai-shek como um patriota."

No entanto, acrescenta ele, "é muito mais fácil ser aberto e franco na condição de acadêmico estrangeiro". De qualquer modo, é certo que a China abriu suas salas de aula de várias maneiras. É uma mudança dramática em relação a 20 anos atrás, quando as grandes universidades ensinavam apenas uma população seleta e seguiam um currículo predeterminado. Na época, não se falava em programas de integração e escolas de extensão.

"A China tem um enorme mercado de pessoas bem educadas prontas para a faculdade", afirma Kirby. Agora, destaca ele, o país faz um enorme investimento nesse talento.

(O Estado de S. Paulo)